quinta-feira, 3 de agosto de 2023

DECORO E ORDEM: A CONSTITUIÇÃO DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL

DECORO E ORDEM: A CONSTITUIÇÃO DA IGREJA PRESBITERIANA DO BRASIL

Prof. João França.

Aula 01: Introdução.

          Você conhece o Manual Presbiteriano? Quantos documento encontramos neste manual? A resposta é três documentos. São eles: A Constituição da Igreja (CI/IPB); Código de Disciplina (CD/IPB) e os Princípios de Liturgia (PL/IPB). A edição utilizada neste curso será a do Manual Presbiteriano com notas remissivas de 2019.[1]

            A nossa CI é a edição revisada do Livro de Ordem da Igreja do ano de 1924, e o novo texto legal da igreja foi promulgado no ano de 1950. O objetivo desta nova Constituição da Igreja (1950) era a promoção da paz e a unidade da Igreja conforme lemos no preâmbulo.[2]

I – A IGREJA NA CONSTITUIÇÃO DA IGREJA.

            A nossa Constituição eclesiástica se ocupa de apresentar de forma bíblica quanto possível a Natureza, Governo e Fins da Igreja. Neste processo aprendemos muito sobre a identidade da Igreja Presbiteriana do Brasil. Assim começa a nossa CI/IPB:

Artigo 1: A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação de igrejas locais, que adota como única regra de fé e prática as Escrituras Sagradas do Antigo e Novo Testamentos e como sistema expositivo de doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os seus catecismo Maior e Breve; rege-se pela presente Constituição; é pessoa jurídica, de acordo com as leis do Brasil, sempre representada civilmente pela sua Comissão Executiva, e exerce seu governo por meio de concílios e indivíduos regularmente instalados.

Destaca-se aqui:

A IPB é...

1.      Uma federação de Igrejas Locais

2.      Uma igreja que acredita na Bíblia do Antigo e Novo Testamento.

3.      Uma igreja confessional [adota uma confissão e catecismos como expressão de sua fé]

4.      Uma igreja que possui uma constituição eclesiástica para reger-se

5.      Uma igreja que não possui presidente, mas uma comissão executiva [mesa]

6.      Obediente às leis do Brasil quando estas não chocarem com a Bíblia e nem com a confissão de fé adotada.

7.      Que possui um sistema conciliar de governo.

II – ENTENDENDO O ARTIGO 1.

1.      O que significa que a IPB é uma Federação?

A IPB – É uma federação de igreja significado que cada igreja local está ligada a uma outra por um presbitério, e um conjunto de presbitério (com muitas igrejas ligadas a um sínodo (regional) e as igrejas do sínodo ligadas a igreja nacional pelo Supremo Concílio.

2.      Organograma:


Onde se fundamenta esta posição da Igreja?  Em Atos 15. Informa que houve um problema local (vs.1-5). Nos versos (6-11) temos os oficiais reunidos em um concílio, o moderador fala (vs.12-21), o concílio decide (vs.22-29).

3.      A Unidade Doutrinária.

A CI/IPB em seu artigo 1 – revela que os presbiterianos tem uma unidade doutrinária conforme encontra-se nos padrões confessionais da Igreja. O texto constitucional não diz qual é a confissão e quais catecismos, embora em resoluções da IPB se mencione os padrões de Westminster. Ressalta-se de forma clara que a Igreja aceita a autoridade suprema das Sagradas Escrituras.

III – O ARTIGO 2 E O PROPÓSITO DA IGREJA:

Art. 2º: A Igreja Presbiteriana do Brasil tem por fim prestar culto a Deus em espírito e verdade, pregar o evangelho, batizar os conversos, seus filhos menores sob sua guarda e “ensinar os fiéis a guardar a doutrina e prática das Escrituras do Antigo e Novo Testamentos, na sua pureza e integridade, bem como promover a aplicação dos princípios de fraternidade cristã e o crescimento de seus membros na graça e no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo.”

AQUI DESTACA-SE:

1.     A Finalidade da IPB é prestar culto a Deus;

2.     O culto deve ser “em espírito e verdade” [espiritual e conforme prescrito na Palavra de Deus;

3.     Promover o evangelho através da pregação

4.     Aplicar o sacramento do bastismo;

5.     Ensinar a guardar todo o ensino do Senhor na sua revelação.

6.     Promover a comunhão dos santos

7.     Promover o conhecimento a respeito de Cristo na comunidade eclesiástica.

a.     O Culto a Deus:

A primeira finalidade do cristão presbiteriano é cultuar ao Senhor. “Em espírito e verdade” – Espiritual porque Deus é espirito; e a verdade é segundo a palavra de Deus. De forma embrionária temos uma solidez espiritual sobre nós.

b.     A promoção do Evangelho:

Pregar o evangelho; batizar os convertidos; batizar os menores, filhos de membros professos; batizar os menores, quando sob tutela de membros da Igreja; doutrinar os seus membros; imprimir neles a prática dos ensinos escriturísticos e da ética bíblica; gerar, manter e aprofundar a comunhão dos fiéis, a fraternidade cristã e a unidade e a dignidade corporativa.

III – ARTIGO 3:  A AUTORIDADE DA IGREJA.

Art. 3º- O poder da Igreja é espiritual e administrativo, residindo na corporação, isto é, nos que governam e nos que são governados.

§ 1°- A autoridade dos que são governados é exercida pelo povo reunido em assembléias para:

a- eleger pastores e oficiais ou pedir a sua exoneração;

b- pronunciar-se a respeito dos mesmos, bem como sobre questões orçamentárias e administrativas, quando o Conselho o solicitar.

c- Deliberar sobre a aquisição ou alienação de imóveis e propriedades, tudo de acordo com a presente Constituição e as regras estabelecidas pelos concílios competentes.

O QUE APRENDEMOS AQUI SOBRE O PODER DA IGREJA?

O artigo 3: fala do poder espiritual e administrativo; O que vem a ser isto?

1.Poder Espiritual: A igreja, por meio do conselho, revela esse poder quando:

(a)Admite à comunhão de seus membros os conversos por meio de pública profissão de fé e batismo;  (b)celebra os sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor;  (c)batiza os menores sob profissão de fé e compromissos de seus pais ou responsáveis;

(d)recebe membros de outras igrejas presbiterianas por transferência ou jurisdição ex-ofício;  (e)acolhe membros de outras denominações por jurisdição a pedido.  (f)cultua a Deus segundo os parâmetros bíblicos; (g)promove e mantém a ordem moral, social e espiritual da comunidade; (h) pastoreia as ovelhas; (i) exerce a disciplina com autoridade, mas com respeito e amor ao Disciplinado (j)prega e ensina as Escrituras sagradas.

Este artigo ele fala da importância do poder espiritual da igreja. Seguindo essa temática a Constituição da igreja apresenta para nós um sumário do dever da igreja; Aprendemos aqui que o poder espiritual da igreja exercido por Concílios e indivíduos.

1.     Onde estão os que governam?

Eles estão nos concílios: Conselho, Presbitério, Sínodo e Supremo Concílio.

•São os presbíteros: Regentes e Docentes.

•Estes são aqueles que exercem o governo sobre a Igreja de Deus e seus respectivos concílios; nota-se que o diácono ainda que oficial da igreja ele não possui a vocação e ordenação para o governo na igreja local. Pois, o diácono desenvolve seu ofício sob a supervisão do conselho da igreja local (vaja-se o artigo 53 da CI/IPB)

2.     Onde está o poder dos governados?

(a)   Na Assembleia da Igreja:

Os que são governados exercem, em assembleia, apenas o poder votivo, pois não se confere à assembleia o direito parlamentar: A prerrogativa de gerar, discutir e votar seus próprios documentos ( cf Art. 25 ).

Ela não se autoconvoca nem determina sua pauta de matérias; tudo procede do Conselho. Ela age, portando, exclusivamente sob “provocação” do Conselho, que lhe traça a agenda e lhe determina a pauta (cf Art. 9º e seus §§ e Art. 25 e seus §§). Na verdade, os reais poderes administrativo e “judicial” da Igreja Presbiteriana local residem no conselho ( cf Art. 69 ).

O andamento da Assembleia da Igreja:

Sob “solicitação” do Conselho, a assembleia pode “pronunciar-se” sobre a “matéria proposta”, mas não pode propor nada, nem mesmo adendos, emendas ou substitutivos. Qualquer membro da assembleia pode pedir explicações sobre questões confusas, inadequadas ou improcedentes. Se não concordar com as explicações, pode recursar ao conselho. Não sendo atendido, requer o encaminhamento do ato contestatório ao presbitério, nos termos dos Arts. 63 e 64. O que ele não pode fazer é discutir, entrando no mérito da contestação, em plenário da assembleia. O conteúdo da matéria proposta à assembleia é sempre estabelecido pelo Conselho. Sobre o todo ou sobre parte do referido conteúdo qualquer membro da assembleia discordar, recorrendo ao Conselho

3.     Tipos de autoridades:

§ 2º- A autoridade dos que governam é de ordem e de jurisdição. É de ordem quando exercida por oficiais, individualmente, na administração de sacramentos e na impetração da bênção pelos ministros e na integração de concílios por ministros e presbíteros. É de jurisdição quando exercida coletivamente por oficiais, em concílios, para legislar, julgar, admitir, excluir ou transferir membros e administrar as comunidades

3.1  - AUTORIDADE DE ORDEM

No caso eclesiástico, são as funções atributivas decorrentes da ordenação e consequente investimento na função para a qual o ministro foi ordenado. Por exemplo: O presbítero regente, por força de ordenação, torna-se “membro do Conselho” e com direito de representá-lo nos concílios superiores, bem como “distribuir os elementos eucarísticos.” O Pastor, em função da ordenação, recebe atribuições inerentes ao seu ministério: Aplicar o batismo, celebrar a Ceia do Senhor, impetrar a Bênção Apostólica, realizar casamento religioso com efeito civil e supervisionar a liturgia da Igreja ( cf Art. 30 e seus §§ ). Ordens são aquelas previstas na CI/IPB, no seu CD e no seu PL

3.2  - AUTORIDADE DE JURISDIÇÃO

Exercício de mandatos com poderes administrativos, espirituais e judiciais sobre pessoas e instituições. Exemplo: Quando presbíteros e pastores, em concílios, executam poderes corporativos de legislar, julgar, admitir, excluir, transferir membros e administrar a comunidade. Os concílios, assembleias de oficiais, exercem jurisdição na seguinte ordem:

Conselho: sobre a Igreja local.

 Presbitério: sobre igrejas de sua jurisdição.

Sínodo: sobre presbitérios.

Supremo Concílio: sobre a Igreja nacional. A Igreja local, pois, está diretamente subordinada ao Conselho ou jurisdicionada por ele. A autoridade jurisdicional dos concílios é específica de cada concílio, mas com grandes poderes eclesiásticos, canônicos, espirituais e administrativos A porta legal de entrada na Igreja e de saída dela é exclusivamente o Conselho, que o faz por meio do sacramento do batismo e do exercício da disciplina, valendo-se do “poder das chaves” ( Mt 18.18 cf Mt 16.19; Jo 20.23 ). O pastor somente recebe os que o Conselho autoriza receber.



[1] MARRA, Claúdio (ed). Manual Presbiteriano com Notas Remissivas. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2019.

[2] Ibid, p.12

segunda-feira, 24 de julho de 2023

A IMPORTÂNCIA DO ANTIGO TESTAMENTO HOJE.

 

A IMPORTÂNCIA DO ANTIGO TESTAMENTO HOJE.

Rev. João Ricardo Ferreira de França.

            Nos dias hodiernos temos presenciado uma espécie de rejeição ao Antigo Testamento. Especialmente quando procuramos em nossas listagens de sermões (se por acaso tenhamos alguma) quantos nós pregamos no Antigo Testamento, iremos observar o quanto o negligenciamos!

            Por que há tanta negligência neste particular? Uma das respostas a ser oferecidas trata-se da distância cultural entre o texto do Antigo Testamento e a nossa cultura atual. Richard Pratt jr, declara:

[...]nosso tempo é diferente do mundo do Antigo Testamento. Os avanços tecnológicos criam um distanciamento. Não usamos carruagens e espadas; usamos misseis nucleares  e sistemas de defesa por satélite. Sociologicamente, não somos doze tribos vivendo na Palestina; somos inúmeros congregações por todo o mundo. Até mesmo o caráter sobrenatural de muitos acontecimentos fazem com que pareçam distantes de nós. Os evangélicos creem que os milagres relatados na Bíblia ocorreram de fato. O machado de ferro de Eliseu literalmente boiou na água (2º Reis 6.1-7); fogo do céu realmente caiu  sobre o sacrifício de Salomão no Templo (2º Crônicas 7.1)[1] 

            A importância deste texto Antigo se revela na necessidade que temos de compreender as verdades do Novo Testamento a luz do Antigo; essa pressuposição é básica pra a compreensão da mensagem e relevância do texto veterotestamentário. Walter C. Kaiser Jr nos lembra que é chegado “o momento de uma nova avaliação das nossas razões para evitar esta seção da Bíblia. Juntamente com um argumento favorável a procurar no Antigo Testamento as respostas para as questões contemporâneas...”[2]  É precisamente esta avaliação supramenciona por Kaiser que precisamos encarar, se acreditamos na unidade entre os testamentos, se cremos que a primeira parte das Escrituras se reveste de plena autoridade de igual modo a segunda parte.

A importância de se estudar o Antigo Testamento está no fato de que o mesmo é a fonte de revelação pactual para o povo de Deus. Aquilo que é dito sobre a totalidade das Escrituras se aplica de modo peculiar ao Velho Testamento, nas palavras de van Groaningen:

O registro escrito contém uma variedade de gêneros literários. experiências são registradas de um modo jornalístico. A maior parte do registro consiste de eventos históricos descritos, avaliados, interpretados, vários tipos de material legal, pronunciamentos proféticos, admoestações em forma de sermão, diálogos hinos e orações. Mas incluídas em tudo isto, explícita ou implicitamente, estão as comunicações verbais de Deus. Tais comunicações são  fonte de unidade, harmonia, significado, propósito e valor do registro escrito.[3]

.Então, essa singela consideração já por si mesma suficiente para nos apresentar a suficiência e a importância do Antigo Testamento para os nossos dias. Reconhecer o caráter revelacional do Velho Testamento é fundamental para a prática da exegese saudável. Juan F. Martínez apresenta uma avaliação com perspicácia singular:

Para muitos cristãos o Antigo Testamento (AT) é algo assim como o apêndice do corpo humano. Se suspeita que em algum tempo passado teve certa importância, porém, no dia de hoje a sua utilidade é marginal. A parte de alguns salmos e uma série de histórias e biografias, o AT tende a ser um livro fechado para a margem da vida da igreja.[...] Porém se temos de “desmarginalizar” o AT, é vital entender a importância de sua mensagem para a vida e ensino da igreja. [4]

Walter C. kaiser Jr, nos apresenta algumas razões importantes pelas quais devemos considerar a importância do texto veterotestamentário. Alegando que o próprio texto sagrado sai em sua própria defesa[5], e apresenta de forma bem lacônica tal defesa:

1.     O Antigo Testamento é a Poderosa Palavra de Deus: Kaiser argumenta que a primeira seção da Bíblia está além de ser uma mera palavra de mortais escrita para a humanidade, o livro sagrado possui uma variedade de estilos, revelando a individualidade, dons e talentos dos escritores, mas ressalta que a “preparação dos autores foi uma obra de Deus” e que a mensagem registrada resulta da revelação de Deus. Argumentando que a vocação profética pode-se dá desde o ventre (Jr. 1.4-5) ou pode ser tardia (Is.1-5), a insistência dos autores em afirmar que recebiam uma revelação de Deus e que deveriam ser distinguidas de suas própria palavras, norteiam a maneira como estudar a revelação divina no Antigo testamento (Jr. 23.28,29), Kaiser argumenta que nenhum cristão do Novo Testamento, incluindo o apóstolo Paulo aceitaria uma diminuição do Antigo testamento, e ressalta a importância do mesmo ao escrever sobre sua suficiência em termos tão majestosos (2ª Tim 3.16-17)[6]

2.     O Antigo Testamento nos leva a Jesus, o Messias: Combatendo a ideia dispensacionalista (a ruptura entre o Antigo e Novo Testamento) Kaiser nos diz que tal ruptura traz em seu bojo um dos resultados mais trágicos na história do povo pactual. Pois, sugere que no Antigo Testamento não há nada de messiânico a ser buscado, a ser estudado, na verdade o Novo Testamento fica sem sentido completamente. Walter Kaiser argumenta  que o conceito messiânico está no âmago da mensagem do Antigo Testamento onde há aproximadamente 456 textos veterotestamentários que fazem alusão direta ao Messias. E segue argumento em prol da defesa de que o Velho Testamento aponta para Cristo desde o pentecostes (Atos 2.16-36) e textos relacionados como Joel 2.28-31; e o salmo 16, 110, eles são claramente apresentados no Novo Testamento como messiânicos e aplicados a Cristo, e a conclusão inescapável é que o Antigo Testamento conduz os homens a Cristo, pois, o Antigo Testamento fala de Jesus (Jo. 5.39)[7]

3.     O Antigo Testamento trata das questões da vida: Acredito que boa parte da negação da importância do Antigo Testamento está naquilo que chamamos da “Ditadura da relevância”! O Velho Testamento parece ser um texto muito distante e não tem nada a dizer à nossa cultura atual. Kaiser mais uma vez fala dessa relevância. Revelando que o escopo do Antigo Testamento “sobre grandes questões da vida é extremamente amplo e assombroso no seu aspecto prático”, então, ele ilustra isso de forma interessante; como, as questões ecológicas e da dignidade humana expressa nos primeiros capítulos de Gênesis (1-11); sobre as relações intimas e conjugais expressas em Cantares de Salomão, e “uma teologia da cultura, no livro de Eclesiastes”. As leis morais e o valor da vida humana conforme ensinada no Antigo Testamento mostram a sua relevância para hoje é singular.[8]

4.     O Antigo Testamento foi usado como a Autoridade Exclusiva na Igreja Primitiva: Esta argumentação é magnânima. A ênfase ao termo “Está escrito” e a palavra “Escritura” foi amplamente usado nos dias da Igreja Primitiva. o termo grego “gra,fh” [grafê] e o seu correlato “gra,fai”[grafai] na maioria de suas ocorrências no Novo Testamento se faz alusão ou referência ao Antigo Testamento. O Cristo ressurreto fundamenta todo seus sofrimento e glorificação nas Escrituras do Antigo Testamento ( Lucas 24.25-26).[9]

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

      O Antigo Testamento é importante para a igreja Cristã porque sua mensagem é como um alicerce no qual toda a teologia das Escrituras é construída; sem ele a mensagem redentiva não encontra sentido é justificativa.

      O Antigo Testamento é relevante para nós hoje porque o Apóstolo Paulo assegura esta verdade em Romanos 15.4: “pois, tudo quanto, outrora foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança

O argumento de Paulo é claro, que o Antigo Testamento é suficiente em matéria de doutrina e vida! Todo ensino (conhecimento, compreensão) que a igreja cristã possui é derivado e oriundo do Antigo Testamento. Todo conforto e consolo que a igreja neotestamentária precisa encontra-se no Velho Testamento, nele somos consolados e instruídos, no livro dos Salmos, por exemplo, somos confortados; e, em Provérbios somos instruídos na sabedoria; só para termos alguns exemplos do Antigo Testamento.



[1] PRATT JR, Richard. Ele nos deu História – Um Guia  Completo para Interpretação das Histórias do Antigo Testamento,  São Paulo: 2004, p. 358.

[2] KAISER JR, Walter C. Pregando e Ensinando a Partir do Antigo Testamento – Um Guia para a Igreja. Tradução: Degmar Ribas. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p.21.

[3] GRONINGEN, Gerard van. Revelação Messiânica no Antigo Testamento. Tradutor: Cláudio Wagner. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 54-55.

[4] MARTÍNEZ, Juan F. A Mensagem do Antigo Testamento para a Igreja de Hoje. Tradutor: João Ricardo Ferreira de França. São Raimundo Nonato – PI: Centro de  Estudos Presbiteriano, 2010, p. 5.

[5] KAISER JR, Walter C. Pregando e Ensinando a Partir do Antigo Testamento – Um Guia para a Igreja. Tradução: Degmar Ribas. Rio de Janeiro: CPAD, 2009, p.22

[6] ibid,p.22-27.

[7] Ibid, p.27-30.

[8] Ibid, p. 30-31

[9] Ibid, 31-33.

domingo, 23 de julho de 2023

Eclesiastes 5.1-7: O Temor Reverente a Deus.

 TEXTO BÍBLICO: ECLESIASTES 5.1-7

TEMA: TEMOR REVERENTE DIANTE DE DEUS

Rev. João França.

INTRODUÇÃO:

            Este texto que temos diante de nós é significativo pois lida diretamente com o tema da adoração ao senhor. Isto por si só é surpreendente porque o texto de Eclesiastes tem sido encarado como um livro que trata da perspectiva negativa da vida neste mundo. O texto é uma nova pericope pela mudança tônica de assunto “Guarda o teu pé quando entrares na casa de Deus” [vs.1] esta unidade é definida pelo inclusio através do uso dos imperativos presentes “guarda” (vs.1) e “teme a Deus”(7) deve-se considerar que no versículo 8 o tópico muda do cenário da adoração e volta-se para questão social no tema sobre “a opressão do pobre!”[1]

            Esta passagem pode ser tomada como um texto de instrução sobre a Adoração a Deus. Um dos temas significativos em todo a o Antigo Testamento. Por isso, “Eclesiastes 5 abre com uma exortação: é preciso ter verdade e reverência na adoração a Deus.”[2] Os imperativos usados aqui apontam que a intenção autoral é oferecer uma instrução sobre a adoração pública. Aqui Salomão utiliza quatro exortações significativas ou imperativos que estão diretamente relacionados ao serviço litúrgico no Antigo Testamento.

            Esse texto revela-nos que existem muitas pessoas que veem a igreja sem algum senso de santidade do culto. Sem o mínimo de reverência diante de Deus. Salomão ao proclamar estas verdades aqui enunciadas tem por finalidade tratar desta irreverência diante da Assembleia solene que é o culto a Deus. As vezes a Adoração tem sido apenas proforma! Mero ritualismo, mera convenção social, um mero programa para se fazer no domingo, os corações de muitos adoradores estão longe de seu objeto de Culto, que neste caso é Deus!

            A mera formalidade havia tomado conta do povo de Israel no Antigo Testamento. Malaquias retrata a degeneração litúrgica do povo da aliança.  Neemias trabalhou incansavelmente para que o dia de adoração no Antigo Testamento fosse honrado e o culto fosse valorizado (Neemias 13.15-21), vemos este servo do Senhor lutando contra aqueles que negociavam nesse dia. Essa conduta é terrível para uma pessoa que se diz adoradora do Senhor.

I – OUVINDO A DEUS COM REVERÊNCIA. (VS.1-3)

            A Pergunta é como devemos guardar o pé? Salomão oferece uma explicação, por assim dizer, desta pergunta: “”Chegar-se para ouvir é melhor do que oferecer sacrifícios tolos” aqui certamente aponta para a profunda reverência que os adoradores demonstravam, ou pelo menos deveriam demonstrar, quando ocorria os sacrifícios dos animais no ato da imolação, havia um silêncio, pois, aquilo indicava a recepção da oferta quanto do ofertante diante de Deus. Pois, havia o sentimento de que Deus estava ali presente naquele ato singelo.

            O processo do culto verterotestamentário estava em o Sacerdote ler a Lei de Deus e oferecer explicações da lei. E, ai temos a segunda linha do verso 1 quando diz “chegar-se para ouvir” – ouvir a Palavra de Deus é mais importante, na verdade é fundamental na vida do cristão. Ouvir a Deus na sua palavra é importante para o povo do pacto. A pregação da Palavra é a Palavra de Deus anunciada.

            Então, compete-nos indagar a Pregação é a Palavra de Deus? Quando se prega se está anunciando a Palavra de Deus? Em seu primeiro capítulo na Segunda Confissão Helvética,  Bullinger, fala-nos sobre isso nos  seguintes termos: A Pregação da Palavra de Deus é palavra de Deus. Por isso, quando a Palavra de Deus é presentemente pregada na igreja por pregadores legitimamente chamados, cremos que a própria palavra de Deus é proclamada e recebida pelos féis; e que nenhuma outra palavra de Deus deve ser inventada nem esperada do céu... T.H.L Packer nos lembra que “Isto não significa identificação absoluta da palavra pregada com a palavra escrita. As Escrituras são definitivas e supremas, inerentemente normativas, enquanto que a autoridade da pregação é sempre delas derivada e a elas subordinada.”[3] Não significa também que a pregação seja inspirada ou inerrante. Os pregadores, por mais fiéis que sejam na exposição das Escrituras, não são preservados do erro como o foram os autores bíblicos. Muito menos significa que os ministros da Palavra sejam instrumentos de novas revelações do Espírito. O próprio documento reformado acima citado repudia essa ideia, ao afirmar que “nenhuma outra palavra de Deus deve ser inventada nem esperada do céu.”[4] É na condição de embaixador que o pregador fala, ele transmite a Palavra de Deus. O próprio João Calvino ensina que a pregação é a Voz de Deus, pois, em seu comentário de Isaías ele afirma que na pregação “a palavra sai da boca de Deus de tal maneira que ela de igual modo sai da boca de homens; pois Deus não fala abertamente do céu, mas emprega homens como seus instrumentos, a fim de que, pela agência deles, ele possa fazer conhecida a sua vontade.”[5]

            Então, quando lemos Salomão declarar que devemos nos achegar na sua casa devemos está ali para “ouvir!” Agora consideremos a expressão “tolos” que aparece aqui neste texto. Será que prestar os outros elementos litúrgicos (como os sacrifícios) é algo sem sentido? Na verdade, o uso desta palavra aqui descreve a intenção tola destes adoradores, pois, eles acreditavam que eles poderiam ser aceitos diante de Deus quando ofereciam aquilo que não lhes era útil.

            Os animais apresentados para serem imolados muitas vezes eram defeituosos: cegos, coxos e doentes. Estes “tolos” também acreditavam que seus sacrifícios perdoavam instantaneamente os seus pecados! E que não necessitavam de arrependimentos. O ponto que o pregador aqui quer enfatizar é que devemos, antes de tudo ir ao culto ouvir o que Deus tem a nos ensinar, ouvir o que ele tem a dizer. Assim, como o povo de Israel no passado nós precisamos ouvir o que Deus tem a nos ensinar.

            Cristo também enfatiza a necessidade de ouvir a Deus constantemente e o seu ensino conforme lemos: Mateus 11.15; 13.9,43; João 8.47; Apocalipse 2.7,11,17,29; 3.6,13,22. Neste sentido a igreja deve ser reverente. Deve saber ouvir a Deus sempre!

            O segundo aspecto de uma adoração reverente envolve, também, a questão da oração. Observe o que Salomão nos ensina no versículo 2: “Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu, na terra; portanto, sejam poucas as tuas palavras.” Observe o termo “palavras alguma diante de Deus” [דָבָ֖ר לִפְנֵ֣י הָאֱלֹהִ֑ים] (davar lipenei há elohim)geralmente significa “no templo, na presença de Deus” – devemos moderar as nossas palavras diante de Deus. Isto porque o pregador apresenta a distância entre nós e Deus “está nos céus, e tu na terra” – notemos que a ênfase de Salomão é que devemos sempre guardar um silêncio sábio diante de Deus, ele repete isso no final deste verso 2: “portanto, sejam poucas as tuas palavras”. Notemos que a primeira orientação que Salomão faz para aquele que vem se apresentar diante de Deus é que ele deve “ouvir” e seja “tardio para falar” – moderação na fala! Jesus no Novo Testamento ensinou isso em Mateus 6.7-9: “E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios; porque presumem que pelo seu muito falar serão ouvidos. 8 Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais. 9 Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome;” Jesus aqui assegura-nos que as nossas palavras devem poucas. Isto porque Deus conhece cada uma das nossas necessidades.

            O pregador reforça a ideia da brevidade de nossas palavras “sejam poucas as tuas palavras” quando recorre um provérbio bastante conhecido no oriente próximo, conforme ele demonstra no versículo 3: “Porque dos muitos trabalhos vêm os sonhos, e do muito falar, palavras néscias.”.

            A ideia aqui no texto é que muitas preocupações levam os homens aos sonhos. Do mesmo modo a voz do tolo leva-o para palavras “nécias”. Vemos aqui uma ênfase nas atitudes dos tolos (1) em oferecer sacrifícios de tolo (vs.1); (2) “palavras tolas” (vs.3); o pregador opta pela moderação no uso das palavras quando se está diante de Deus.

II - CUMPRINDO COM NOSSAS PROMESSAS A DEUS (v. 4-6)

            Agora o pregador se volta para mostrar a importância do voto com ato de culto e adoração a Deus; entretanto, ele começa mostrando a atitude do “tolo” observe o versículo 4: “Quando a Deus fizeres algum voto, não tardes em cumpri-lo; porque não se agrada de tolos. Cumpre o voto que fazes.” – Deus não tem prazer no tolo, daí uma necessidade de sermos pessoas sábias que adoram a Deus. Aqui o pregador faz alusão direta ao texto de Deuteronômio 23.21-22: “21 Quando fizeres algum voto ao SENHOR, teu Deus, não tardarás em cumpri-lo; porque o SENHOR, teu Deus, certamente, o requererá de ti, e em ti haverá pecado.22 Porém, abstendo-te de fazer o voto, não haverá pecado em ti.

            A Escritura apresenta de forma abundante exemplos de votos que foram de pessoas sábias e de pessoas tolas. Uma destas pessoas é Ana conforme lemos fez um voto ao senhor por um filho que ao nascer seria devolvido ao senhor como servo no tabernáculo; Deus abençoou Ana e ela cumpriu seu voto; outra pessoa que nos vem a mente é o caso de Jefté que voto de tolo foi aquele daquele homem! Mas, infelizmente nem todos que assistem na casa cumprem adequadamente seus votos, Deus atendeu o voto, mas aquele que o fez não o cumpriu; então o pregador oferece mais uma orientação. O versículo 5 declara isso: “5 Melhor é que não votes do que votes e não cumpras.”

            O Novo Testamento oferece um exemplo surpreendente da ira de Deus quando a pessoa não cumpre seus votos. Ananias e Safira aparentemente votaram que entregariam o dinheiro da venda de uma propriedade à igreja para a distribuição aos necessitados. Mas, secretamente, retiveram para si parte do dinheiro. Pedro disse a Ananias: “Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder?” Pela mentira, Ananias e Safira foram punidos com a morte, “e sobreveio grande temor a toda a igreja e a todos quantos ouviram a notícia desses acontecimentos” (At 5.4,11).[6]

Jesus ele ensinou a importância do juramento e do voto (Mateus 5.34-37) quando declara:

34 Eu, porém, vos digo: de modo algum jureis; nem pelo céu, por ser o trono de Deus; 35 nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do grande Rei; 36 nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. 37 Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno.        

            A nossa Confissão de Fé de Westminster vai nos ensinar que o juramento e voto são da mesma natureza uma coisa está atrelada a outra. Não podemos quebrar um voto sem está quebrando a lei de Deus! “V. O voto é da mesma natureza que o juramento promissório; deve ser feito com o mesmo cuidado religioso e cumprindo com igual fidelidade.” (CFW, Cap.22, seção 5).

Hoje, na igreja, ainda fazemos votos a Deus. Quando nos casamos, prometemos diante de Deus vivermos juntos como marido e esposa “até que a morte nos separe”. Quando apresentamos nossos filhos para o batismo, prometemos instruí-los na fé cristã e conduzi-los no discipulado cristão. Quando somos ordenados como oficiais da igreja, prometemos cumprir fielmente esse chamado. Também podemos fazer promessas particulares a Deus na igreja: “Se Deus me curar, eu...” O ponto é: devemos cumprir essas promessas se quisermos adorar a Deus com reverência.[7]

A situação é tão séria que o pregador orienta: “Não consintas que a tua boca te faça culpado, nem digas diante do mensageiro de Deus que foi inadvertência; por que razão se iraria Deus por causa da tua palavra, a ponto de destruir as obras das tuas mãos?” Aqui parece que o pregador esteja fazendo referência aqueles que faziam votos em dá uma certa quantia ao templo! Então, quando eram abençoados não o faziam, e diziam que fez o voto de forma inadvertidamente ao mensageiro que era enviado para lembrar-lhe do voto que havia feito.

Muitos de nós temos esta atitude. Prometemos a Deus em voto contribuir com a Igreja caso uma causa, uma situação financeira seja resolvida, e quando vem a resolução. Então, quebramos a Lei de Deus. Note que o pregador insiste que agindo assim pode-se se inflamar a ira de Deus contra aquele que não cumpriu o seu voto!

O Pregador conclui com o verso 7: “Como na multidão dos sonhos há vaidade, assim também, nas muitas palavras; tu, porém, teme a Deus”. A primeira parte deste verso parece ser outro provérbio que reforça a orientação de que não devemos deixar que a boca nos leve ao pecado. Como muitos sonhos são vaidades, isto é, vazios e fúteis, assim também uma multidão de palavras na adoração é vazia e fútil. Até mesmo nossa adoração a Deus pode ser sem substância, fútil, por causa da “multidão de palavras”.

A última ordem que encontramos aqui é o temor a Deus. O alvo da igreja em sua adoração é promover e vivenciar o temor a Deus. Consequentemente, o Pregador conclui com uma última ordem: “Teme a Deus”. Em vez de usar palavras vazias, tema a Deus. O livro de Provérbios enfatiza que “o temor do Senhor é o princípio do saber” (1.7; cf. 9.10; 31.30). O Pregador diz que o temor do Senhor é o princípio da adoração. Temer a Deus não significa que devemos ter medo de Deus ou ficar aterrorizados quando estamos na sua presença. Temer a Deus significa que reverenciamos a Deus, que temos reverência por ele, que comparecemos à sua presença com reverência.



[1] Veja-se GREIDANUS, Sidney. Pregando Cristo a partir de Eclesiastes. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p.141.

[2] RAYKEN, Phillip. Estudos Bíblicos Expositivos em Eclesiastes. São Paulo: Cultura Cristã,

[3] T. H. L. Parker, Calvin’s Preaching (Edinburgh: T&T Clark, 1992), p.23

[4] ANGLADA, Paulo. Introdução à Pregação Reformada – Uma Investigação Histórica sobre o Modo Bíblico-Reformado de Pregação. Ananideua – PA: Knox Publicações, 2005, p.61.

[5] Apud, ANGLADA, Paulo. Introdução à Pregação Reformada – Uma Investigação Histórica sobre o Modo Bíblico-Reformado de Pregação. Ananideua – PA: Knox Publicações, 2005, p.64

[6] Veja-se GREIDANUS, Sidney. Pregando Cristo a partir de Eclesiastes. São Paulo: Cultura Cristã, 2017, p.151

[7] Ibid, p.152