quarta-feira, 12 de julho de 2023

CATECISMO MAIOR DE WESTMISNTER: A NATUREZA DA ORAÇÃO

 

A NATUREZA DA ORAÇÃO

Rev. João França.

PERGUNTA 178  - O QUE É ORAÇÃO? – RESPOSTA: Oração é um [santo] oferecimento de nossos desejos a Deus, em nome de Cristo e com o auxilio do Espírito, e com a confissão de nossos pecados e um grato reconhecimento de suas misericórdias ”

INTRODUÇÃO:

            Vivemos em um mundo que não quer conversar mais com Deus. Os relacionamentos nos dias hoje são informatizados, são tecnocráticos, e a oração tem sido relegada a um plano bem inferior da comunicação. Esta semana é uma semana que estaremos estudando sobre oração, conhecendo mais sobre este assunto a luz dos padrões confessionais de nossa igreja. Na nossa aula de hoje vamos considerar a natureza da oração.

I – O QUE É ORAÇÃO?

            Geralmente as pessoas definem oração como sendo uma conversa com Deus. E às vezes nos perguntamos como pode alguém ignorar a oração, se ela é uma conversa com Deus? Sproul diz que “a oração é o segredo da santidade”[1] O Breve Catecismo de Westminster nos diz que a oração é “um santo oferecimento a Deus de nossos desejos”; então, oração e santidade estão relacionadas! Não devemos nos esquecer deste princípio.

            Oração é oferecimento. Oferecemos nossas necessidades a Deus, nossas vidas, nossos sonhos, nossos projetos tudo que o temos e o que somos estão sempre diante de Deus em oração. Em outras palavras a oração “tem um lugar vital na vida do cristão”[2] lembre-se que na oração expressamos confiança em Deus e derramamos diante dele nosso coração: “Confiai nele, ó povo, em todo tempo; derramai perante ele o vosso coração; Deus é o nosso refúgio. (Salmos. 62:8 ARA)”.

II –  A ORAÇÃO É TRINITÁRIA.

            Outro aspecto importante que devemos estudar sobre a natureza da oração é que ela é trinitária em sua formulação e apresentação. O catecismo Maior de Westminster declara que a oração é um oferecimento ao Pai,  em nome do Filho e com o auxílio do Espírito Santo. A dimensão trinitária é quase desconsiderada na prática da oração. Nos esquecemos que na oração nos digerimos primeiramente ao pai conforme vemos em Mateus 6.9 “Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; (Mat 6:9 ARA)” .

            Na dimensão da oração oferecemos a Deus pai nossas necessidades urgentes e certamente ele nos ouve. Isto nos fala do cuidado paternal de Deus sobre seus filhos que recorrem à oração com súplicas ao pai.

            A dimensão da oração trinitária envolve também a Pessoa do Filho. O catecismo ressalta que oração deve ser e [...em nome do Filho] isto nos fala da obra mediadora de Cristo Jesus na oração. O próprio senhor Jesus ensinou sobre isso quando tratou da dinâmica da oração conforme lemos em João 14.13-14: “13 E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. 14 Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. (João. 14:13-14 ARA)”. As nossas orações são aceitas porque nós temos um mediador pactual, e este, é o Senhor Jesus Cristo; o evangelho de João deixa isso muito claro no capítulo 16.13-14: “Naquele dia, nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome. 24 Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa.  (João 16:23-24 ARA)”

            A terceira dimensão da oração trinitária é o auxílio do Espírito Santo. Nesta dimensão somos relembrados pelo Catecismo Maior de que ainda que não saibamos como  orar, o Espírito Santo sempre assiste ao crente que ora a Deus. Esta é uma grande dúvida de nosso povo; muitos se encontram tímidos em orar porque acham que não sabe orar, como o pastor, como o presbítero ou como o diácono; mas, na verdade, a Palavra de Deus nos ensina que ninguém sabe orar de um modo aceitável a Deus, a não ser que seja socorrido, ou na linguagem bíblica assistido pelo Espírito Santo. Este ensino é claro também na palavra de Deus em Romanos 8.26: “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. (Romanos 8:26 ARA)”.

III – A ORAÇÃO TEM UMA DUPLA NATUREZA GERAL

            O catecismo apresenta-nos a dupla natureza geral da oração: (a) uma oração de Confissão; (b) é uma oração de gratidão. Toda oração do cristão envolve estes dois elementos importantes.

Ao se aproximar do senhor em oração estamos cônscios de que devemos oferecer nela: “a confissão de nossos pecados” conforme aprendemos na oração do Senhor “perdoa-nos” (Mateus 6.12). Sabendo que ele é “fiel e justo” para nos perdoar (1ª João 1.9). Thomas Ridgley, em sua obra A Body of Divinity [O corpo da Divindade] que é o primeiro comentário escrito sobre o Catecismo Maior de Westminster, sobre esta questão 178 declara:

É necessário insistir nisso, na medida em que somos obrigados a obedecer à vontade revelada de Deus; não obstante, por causa de nossa depravação e fraqueza, nada podemos fazer de bom sem sua ajuda, o que não é de se esperar, a menos que seja humildemente desejado por ele; e isso é o que geralmente chamamos de oração; que sendo realizado por criaturas que não são apenas indigentes, mas indignas, isso deve ser reconhecido e, portanto, devemos, em oração, confessar o pecado como o principal fundamento e razão dessa indignidade. (RIDGLEY, 1815, Volume 4, p.234)

A segunda consideração está na gratidão ou na linguagem confessional do catecismo: “ um grato reconhecimento de suas misericórdias”. Na oração devemos reconhecer as misericórdias do Senhor sobre nossas vidas, pois, são elas as causas de não sermos conseguidos (Lamentações de Jeremias 3.22). Lembre-nos do que disse o salmista: “Vamos à presença dele com ações de graças”(Salmos 95.2-3), ou como coloca-nos Paulo em Timóteo: “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens”(1ª Timóteo 2.1)

 CONCLUSÃO:

            Que as nossas orações refletiam estas verdades que aprendemos, pois, sabemos que a oração é um oferecer a Deus de todas as nossas necessidades legítimas e desejos legítimos diante de Deus. Compreendendo que o Deus Trino está a atender as nossas oraçãos que revelam nossa necessidade da graça perdoadora bem como um coração grato diante de Deus.



[1] SPROUL, R.C. A oração muda as coisas? São José dos Campos: Editora Fiel, 2012, p.7

[2] Ibid, p.8

terça-feira, 11 de julho de 2023

AS INSTITUTAS DA RELIGIÃO CRISTÃ DE CALVINO: SEU CONTEXTO HISTÓRICO.

 AS INSTITUTAS DA RELIGIÃO CRISTÃ DE CALVINO: SEU CONTEXTO HISTÓRICO.

Rev. João Ricardo Ferreira de França

INTRODUÇÃO:

             A história da igreja tem personagens significativos em seu rol. Há ilustres nomes ao longo do tempo desde os grandes heróis da fé conforme registra Hebreus capítulo de número onze até missionários que são martirizados por testemunhar sua fé! Nessa tão densa nuvem de testemunhas, de heróis, de homens compromissados com o Evangelho, existe um homem conhecido como João Calvino (1509-1564), no cenário atual tem se escrito uma gama de biografias, artigos, teses sobre a sua pessoa e sua vida.

            A teologia de Calvino tem sido discutida e debatida em duas fontes principais, a primeira, é a sua coleção de comentários bíblicos que abarcam tanto o Antigo quanto o Novo Testamentos – uma fonte de consulta e pesquisas constantes; a outra é aquilo que tem sido considerada a opus Magnum de Calvino:  As Institutas da Religião Cristã. Neste estudo pretendemos considerar o contexto no qual as Institutas foram escritas. A razão para este estudo é que muitos ditos herdeiros da fé Reformada ou Calvinista passam pelo seminário teológico sem nunca ter uma cadeira especifica (uma disciplina) que aborda o conteúdo desta obra de João Calvino.

I – CALVINO: SUA VIDA.

            O reformador francês nasceu no dia 10 de julho de 1509 na cidade de Noyon, na França. Seu pai era um administrador financeiro do palácio do bispo católico da diocese de Noyon (LAWSON, 2007, p.18). O pai o havia criado para o sacerdócio, pois, naquele tempo isso era bastante rentável. Calvino ingressou na Universidade de Paris com o objetivo de estudar teologia, isto aos 14 anos de idade, para ter a preparação formal, e então, torna-se um sacerdote católico romano; aos 17 anos Calvino graduou-se em mestre em ciências humanas (Ibid, p.19).

            O pai de Calvino, após, um desentendimento com as autoridades eclesiásticas de Noyon decide colocar o filho para estudar Direito na universidade de Orleáns (1528), Calvino como um filho obediente, assim o fez. Porém, o Pai de Calvino morre em 1531; então, o futuro reformador mudou a direção de seus estudos para a literatura clássica que era a sua paixão. Seu primeiro comentário foi sobre uma obra clássica “De Clementia” do filósofo romano Seneca. Este comentário de Calvino foi a sua tese de doutorado do futuro teólogo reformador de Genebra. (LAWSON, 2007, p.20)

II – O CONTEXTO DAS INSTITUTAS DA RELIGIÃO CRISTÃ

            A conversão de Calvino à fé evangélica foi uma súbita conversão a Cristo, “onde as amarras do papado”, conforme ele descreve em seu prefácio ao comentário do livro de Salmos, esta conversão ele a descreve de um modo quase que poético:

Minha mente, que, a despeito de minha juventude estivera por demais empedernida em tais assuntos, agora estava preparado para uma atenção séria por uma súbita conversão, Deus transformou-a e a trouxe-a à docilidade (GEORGE, 1994, p.31)[1]

            A Conversão de Calvino deu um novo ar as perspectivas do avanço da Reforma tanto em Genebra como na França.

a)     O Nascimento das Institutas:

A primeira edição das Institutas foi em 1536.  Desde o princípio deve-se ressaltar que o surgimento desta obra se deu pelo incentivo de um amigo de Calvino chamado Louis du Tillet, Calvino ficou certa vez hospedado em sua casa onde produziu “grande parte de seu livro as institutas”, porém, este amigo de Calvino posteriormente se voltou para o romanismo.[2]

 O próprio Calvino escreveu como uma cartilha para instruir os cristãos novos na fé. Ela (as institutas) alguns anos após o fracasso literário de Calvino com a obra “De Clementia” este datado de 1532. A obra de Calvino o “De Clementia” foi uma espécie de desapontamento para seu autor, e, até mesmo em sacrifícios financeiros não compensados, um evidente fracasso, por tanto. (FERREIRA, 1985, p.142) O livro não se vendia. “Quase ninguém tomou conhecimento de sua publicação.” (HALSEMA, 2009, p.28).

Alguém já disse que o caminho da providência gerou o “insucesso do ‘De Clementia’ para aniquilar o humanista que começara a repontar em Calvino e dele fazer um teólogo consumado que havia de ser, nas Institutas” (FERREIRA, 1985, p.142). E, assim, temos o nascimento das Institutas como uma cartilha para orientar aos cristãos protestantes na vida de piedade.

b. O Título da Obra:

Nos compete também considerar o título da Opus Magnum  de Calvino conforme considerada neste artigo. O título que o Reformador deu a sua obra magna foi: O Ensino Básico da Religião Cristã, compreendendo quase a soma total da piedade do que é necessário conhecer sobre a Doutrina da Salvação. Um Trabalho recém-publicado que muito merece ser lido por todos os que estudam a Piedade. Um Prefácio ao mais cristão Rei da França, oferecendo a ele este livro como uma Confissão de Fé do autor, Jean Calvin de Noyon(GEORGE, 1994, p.177)[3] O que se destaca no título no título da obra são quatro princípios básicos:

1.     As Institutas seria um manual básico da fé protestante;

2.     As Institutas visavam fomentar a piedade cristã nos caminhos da salvação;

3.     As Institutas tem um caráter apologético;

4.     As Institutas chegam com força de uma confissão de fé.

Estes princípios são tão notórios que que o próprio Calvino resumiu a obra, em sua primeira edição, dando-lhe o título de Breve Instrução, que serviu como uma confissão de fé da Igreja de Genebra.

III – A ESTRUTURA TEOLÓGICA DAS INSTITUTAS.

            Consideremos agora a estrutura teológica das Institutas da Religião Cristã. A primeira edição das Institutas consistia de uns poucos seis capítulos, que podem ser estruturados do modo com segue:

1.     A Lei de Deus – Uma Breve Exposição dos Dez Mandamentos;

2.     A Fé – Uma sucinta Exposição do Credo Apostólico;

3.     A Oração – Apresenta-se uma exegese da oração dominical (O Pai Nosso);

4.     Os Sacramentos - Calvino discute a doutrina do Batismo e da Eucaristia (Santa Ceia)

5.     Os Cinco Sacramentos adicionais -  Calvino de forma apologética refuta os cinco sacramentos adicionais dos romanistas;

6.     A Liberdade Cristã e a Igreja – Aqui o Reformador Francês  toca em três delicados temas para a época:

a.      A Liberdade Cristã e de consciência;

b.     A política Eclesiástica;

c.      O Magistrado Civil.

Com os passar dos anos a mente de Calvino e a sua pena foram maturando suas ideias e as Institutas foi ganhando corpo, chegando a uma edição final em 1559. Composta com quatro volumes com um esquema teológico mais abrangente e completo para a instrução na fé reformada. Seu esquema de organização ficou como segue:

VOLUME I – O CONHECIMENTO DE DEUS, O CRIADOR:

1.     O conhecimento duplo de Deus;

2.     As Escrituras;

3.     A Trindade;

4.     A Criação;

5.     A Providência.

VOLUME II – O CONHECIMENTO DE DEUS, O REDENTOR:

1.     A queda, Pecaminosidade do homem;

2.     A Lei;

3.     Antigo e o Novo Testamentos (sua relação);

4.     Cristo, o Mediador: Sua Pessoa (Profeta, Sacerdote, Rei) e a obra da expiação;

VOLUME III – O MODO PELO QUAL RECEBEMOS A GRAÇA DE CRISTO, SEUS BENÉFICIOS E EFEITOS:

1.     Fé e Regeneração;

2.     Arrependimento;

3.     Vida Cristã;

4.     Justificação;

5.     Predestinação;

6.     A última ressurreição (final)

VOLUME IV – OS MEIOS EXTERNOS PELOS QUAIS DEUS CONVIDA-NOS À SOCIEDADE DE CRISTO.

1.     A Igreja.

2.     Os Sacramentos

3.     O Governo Civil.

CONCLUSÃO:

            Este artigo visou apresentar em linhas gerais o contexto das Institutas da Religião Cristã de João Calvino. Mostrando o quatro geral de como esta obra foi desenvolvendo-se até chegar a sua forma atual nos dias hoje.

BIBLIOGRAFIA:

1.     BEEKE, Joel. R.; JONES, Mark. Teologia Puritana – Doutrina para a Vida. Tradução: Marcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 2016.

2.     BEZA, Theodoro de. A Vida e a Morte de João Calvino. Tradução: Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Editora Luz para o Caminho, 2006.

3.     CALVINO, João. Comentário sobre o Livro de Salmos, Volume 1. Tradução: Valter Graciano Martins, São Paulo: Editora Fiel, 2009.

4.     COSTA, Hermisten Maia Pereira da. A Inspiração e Inerrância das Escrituras – Uma Perspectiva Reformada. São Paulo: Cultura Cristã, 1998.

5.     FERREIRA, Wilson de Castro. Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo: Luz Para o Caminho,1998.

6.     CALVINO, Juan. Instiución de La Religión Cristiana. Tradução: Cipriano de Valera.  Barcelona:1999

7.     GEROGE, Timothy. Teologia dos Reformadores.Tradução: Gérson Dudus e Valéria Fontana. São Paulo: Editora Vida Nova, 1994

8.     HALSEMA, Thea B.  Von. João Calvino Era Assim.   São Paulo: Editora Os Puritanos, 2009

9.     LAWSON, Steven. A Arte Expositiva de João Calvino. Tradução:Ana Paula Eusébio Pereira. São Paulo: Editora Fiel,2008.

 

 

 



[1] Veja-se CALVINO, João. Comentário aos Salmos, São José Campos – SP: Volume 1,2009, p.31.

[2] Veja-se TOKASHIKI, Ewerton B. Pastoreando o Rebanho de Deus – Os documentos de Ordem da Igreja de Genebra. Teófilo Otoni – MG: Credo Reformado Publicações, 2022, p.31 – nota de número 15.

[3] Ênfase nossa.

domingo, 9 de julho de 2023

CREDO APOSTÓLICO: ARTIGO 04 - OS ESTÁGIOS DO SOFRIMENTO DO REDENTOR

 OS ESTÁGIOS DO SOFRIMENTO DO REDENTOR

Rev. João França

INTRODUÇÃO:

Os evangélicos de modo geral não sabem lidar com a expressão de fé em formato de um credo, catecismo ou confissão de fé! Isto porque a maioria dos grupos religiosos são influenciados por uma cosmovisão moderna e ateísta. Onde a negação do sagrado é evidente, e o viver sem ligação com o passado é muito grande, há um desprezo pelo que é antigo.

Neste estudo do Credo Apostólico somos conduzidos ao artigo 4 do Credo dos Apóstolos que diz: “Creio em Jesus Cristo, [...] o qual padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e Sepultado[...]” aqui aprendemos muito sobre o nosso redentor.

I - CRISTO PADECEU.

No estágio do sofrimento de Cristo o Credo Apostólico declara que ele “Padeceu sob Poncio Pilatos” ou como diz o texto latino: “passus sub Pontio Pilato”. O teólogo Reformado Bullinger, em seus Decades, diz que neste quarto artigo da fé é declarado “o fim, o uso e a obra principal da incarnação de nosso Senhor”[1]. Mas, o que significa a palavra “padeceu”? O catecismo de Heidelberg no domingo de número 15 Responde:

Que Cristo, em corpo e alma, durante toda a sua vida na terra, mas principalmente no final, suportou a ira de Deus contra os pecados de todo o gênero humano. Por este sofrimento, como o único sacrifício propiciatório, Ele salvou, da condenação eterna de Deus, nosso corpo e alma  e conquistou para nós a graça de Deus, a justiça e a vida eterna.[2]

Uma das passagens que podem exemplificar essa declaração é Filipenses 2.5-11 quem em termos teológicos é uma condensação da vida e paixão de Cristo descrita por Paulo.[3] Zacharias Ursinus, um dos autores do Catecismo de Heidelberg, segue esse pensamento condensador da teologia paulina afirmando que:

A paixão ou sofrimento de Cristo é colocada imediatamente após a sua concepção e nascimento; 1. Porque toda a nossa salvação consiste na sua paixão e morte. 2. Porque toda a sua vida foi uma cena contínua de sofrimento e privação. Também há muitas coisas que podem e devem ser observadas de forma proveitosa na história da vida que Cristo viveu na terra, escrita por aqueles que foram testemunhas oculares dos fatos que eles registram. Pois isso não apenas prova que ele é o Messias prometido, na medida em que todas as previsões dos profetas se cumprem nele, mas também é uma contemplação da humilhação e obediência que ele prestou ao seu Pai.[4]

Uma das passagens clássicas que o Catecismo de Heidelberg cita é Isaías 53.4,12. Neste texto vemos que o padecimento ou sofrimento do Messias deve ser encarado em termos redentivos, ou seja, seu sofrimento é um preambulo da efetivação da salvação que se manifesta com sua morte e se confirma com sua ressurreição (Romanos 4.25). Ele de fato padeceu é um homem de dores e saber o que é padecer ou sofrer. Mais, uma vez Bulling descreve este sofrimento declarando “que ele sofreu verdadeiramente as calamidades e misérias deste mundo, e depois disso, novamente os tormentos dos recebido dos seus algozes e a própria morte em dores de muita amargura.”[5]Então, o entendimento Reformado sobre o termo “padeceu” no credo está ligado a todo o sofrimento durante a vida até o momento da morte do Messias.

Sabemos que o personagem Pilatos entra no credo como uma referência histórica[6]. Bulling diz que este artigo não deixa passar o tempo quando cita Pilatos, pois, ele foi “o juiz sob o qual o Senhor foi morto.” Ele lembra, em linhas mais acima, que o sofrimento de Cristo foi um “sofrimento no corpo e na alma”.[7]

O saudoso James I. Packer quando olha para a frase “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado” pede para que leiamos a frase de trás para frente: “Foi crucificado sob Pôncio Piltaos padeceu”. “ ‘Foi crucificado’. Esta era a forma padrão romana de executar criminosos. Dizer ‘Jesus foi crucificado’ é como dizer que ele foi enforcado ou foi para a cadeira elétrica”[8]. Quando observamos isso, vemos que o sofrimento de Cristo foi singular e único na história da humanidade.

II – CRISTO FOI CRUCIFICADO.

Foi Crucificado” ou no latim “crucifixus

Quando lemos essa declaração as vezes não ponderamos no que ela realmente significou ou significava para aqueles que tiveram o contato com o credo primitivamente. “A crucificação era uma morte humilhante, infame, no mundo antigo. Eram os piores bandidos que eram crucificados”.[9] A escritura revela traços da crueldade da crucificação feita ao nosso redentor. Porque na palavra de Deus é-nos dito que todo aquele que for “pendurado no madeiro” é maldito (Gálatas 3.13). Esta declaração paulina é uma citação de Deuteronômio 21.23.

Mas, como era a crucificação nos tempos de Cristo? Franklin Ferreira traz informes interessantes que respondem a esta questão:

E o crucificado não era morto pelos cravos ou pregos. Algumas vezes estes não entravam na palma da mão da pessoa (como costuma ser retratado em quadros ou filmes antigos), mas entre os dois ossos acima do pulso. Algumas vezes, também, os pregos também não eram colocados sobre os pés, mas na parte do lado do calcanhar, que eram esmagados no processo. Em algumas cruzes a pessoa era pendurada numa posição mais ou menos sentada, o que a levava a morrer de asfixia, perdendo o ar lentamente. O tempo que levava para a pessoa morrer era mais ou menos dois ou três dias. A pessoa geralmente era crucificada no lugar onde ela cometera o crime, quando era capturada por uma tropa romana. Por isso, Jesus Cristo é crucificado fora da cidade de Jerusalém (Hb 13.12), junto com os dois salteadores, à esquerda e à direita. Podemos imaginar as pessoas zombando, jogando pedras, ridicularizando aqueles que estavam morrendo daquela morte horrorosa, demorada e violenta. Algumas vezes, os soldados empalavam aqueles que estavam sendo crucificados; isto é, eles enfiavam uma lança no orifício anal do crucificado. Aquele que era crucificado era degradado. Podemos imaginar abutres e corvos pousando sobre aqueles crucificados ainda vivos, bicando, machucando, e a pessoa completamente impotente, lentamente sendo morta. Assim eram as crucificações naquela época.[10]

III – CRISTO FOI MORTO E SEPULTADO

“Morto e sepultado”

Agora nos compete tratar destes dois eventos singulares para fé cristã. A morte e o sepultamento do redentor do povo de Deus. A morte de Cristo se manifesta neste mundo como emblema de que a maldição edênica (Gênesis 2.17) se faz realidade no autor da vida.

 O Catecismo de Heidelberg no domingo 16 na questão 40 indaga a respeito da necessidade de Cristo sofrer a morte de cruz – a resposta diz “porque a justiça e a verdade de Deus exigiam a morte do Filho de Deus. Não houve outro meio de pagar nossos pecados”.[11]Ursinus em seu comentário ao Catecismo de Heidelberg declara:

Era necessário que Cristo, para fazer satisfação, não apenas sofresse, mas também morresse:

Por causa da justiça de Deus. O pecado é um mal de tamanha magnitude, que, de acordo com a ordem da justiça, ele merece e exige a destruição do pecador; pelo motivo de que aquilo que é ofensivo ao bem supremo só pode ser expiado com o castigo mais severo e a destruição extrema do pecador, ou seja, com a sua morte, como está escrito: "pois o salário do pecado é a morte" (Rm 6: 23). Cristo assumiu nosso lugar e se tornou a pessoa daqueles que haviam pecado e mereciam não apenas a morte eterna, mas também a morte temporal; pois tínhamos merecido a destruição que consiste na separação entre a alma e o corpo, e uma vez que isso ocorra, o próprio corpo também é destruído, assim como uma casa é dita destruída quando suas partes são separadas umas das outras. Portanto, era necessário que o Filho de Deus morresse a fim de que um resgate suficiente pudesse ser feito, o que não poderia ter sido realizado por uma mera criatura.[12]

O credo também ensina que o nosso redentor foi “sepultado”. Este é o último estágio, por assim dizer, da humilhação de Cristo. Barth capitou bem essa ideia quando escreveu: “ ‘sepultado’ dá à morte o caráter de passagem e declinío e à existência humana o caráter de transitoriedade [aquilo que é passageiro] e corruptibilidade [causa deteriozação]”.[13] O Sepultamento de Cristo não foi um caso fortuito, na verdade foi evento profetizado, por tanto, planejado por Deus conforme lemos “designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na sua morte, posto que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca” (Is 53:9). Gerard van Groningen comentando este texto de Isaías declara:

a passagem deixa claro que o Servo morre como morre um criminoso e é enterrado como o rico é enterrado. O Servo, embora tratado como um criminoso, é totalmente inocente. Nem em atos, nem em palavras ele se fez culpado. Manteve a sua inocência em toda a sua vida e na sua detenção, julgamento e morte.[14]



[1] BEEKE, Joel R; ELLA, George. (ed). BULLINGER, Henry. The Decades. Volume 1. Decade 1. Grand Rapis: Reformation Heritage Books, 2004, p.134

[2] MARRA, Claúdio (ed). Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2011, p.39.

[3] Veja-se BARTH, Karl. Credo - Comentário ao Credo Apostólico. São Paulo: Editora Fonte Editorial, 2010, p.82.

[4] URSINUS, Zacharias. Commentary On The Heidelberg Catechism. The Synod of the Reformed Church

in the United States (RCUS), 2004,p.394

[5] BEEKE, Joel R; ELLA, George. (ed). BULLINGER, Henry. The Decades. Volume 1. Decade 1. Grand Rapis: Reformation Heritage Books, 2004, p.134

[6] BARTH, Karl. Credo - Comentário ao Credo Apostólico. São Paulo: Editora Fonte Editorial, 2010, p.86

[7] BEEKE, Joel R; ELLA, George. (ed). BULLINGER, Henry. The Decades. Volume 1. Decade 1. Grand Rapis: Reformation Heritage Books, 2004, p.135

[8] PACKER, J.I. Affirming the Apostles’ Creed,Grand Rapis: Crossway Books, 2008, p.79.

[9] FERREIRA, Franklin. O Credo dos Apóstolos – As Doutrinas Centrais da Fé Cristã. São José dos Campos – SP: Editora Fiel, 2015, p.175.

[10] Idem.

[11] MARRA, Claúdio (ed). Confissão Belga e Catecismo de Heidelberg. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2011, p.50.

[12] URSINUS, Zacharias. Commentary On The Heidelberg Catechism. The Synod of the Reformed Church

in the United States (RCUS), 2004,p.408 – ênfase nossa.

[13] BARTH, Karl. Esboço de uma Dogmática. São Paulo: Fonte Editorial, 2006, p.166

[14] Gerard van Groningen, Revelação Messiânica no Antigo Testamento (São Paulo, Editora Cultura, 2ª ed., 2003), p. 607.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

ACONSELHAMENTO BÍBLICO: OS PRÍNCIPIOS BÁSICOS DO ACONSELHAMENTO PASTORAL

 

OS PRINCÍPIOS BÁSICOS DO ACONSELHAMENTO PASTORAL.

Rev. João Ricardo Ferreira de França

Consideraremos agora os princípios básicos do Aconselhamento pastoral. Estes princípios precisam está claros diante de cada obreiro na obra do Senhor.

1  – O Fundamento do Aconselhamento pastoral:

            O conselheiro cristão Jay E. Adams nos lembra que “a base do aconselhamento cristão nada mais é, senão a Escritura do Antigo e Novo Testamento. A Bíblia é o livro texto do aconselhamento da igreja cristã”.[1] Esta concepção é pressuposta na leitura da Palavra de Deus em 2ª Timóteo 3.15-17. Onde o apóstolo Paulo revela a suficiência da Escritura para lidar com as questões do aconselhamento. Isto faz uma tremenda diferença.

2  – Princípios Básicos do Aconselhamento Pastoral:  

Os princípios básicos que encontramos para o aconselhamento pastoral certamente passam pelo crivo das pressuposições de que a Bíblia é a palavra de Deus.  E por isso, é importante o “treinamento teológico  e bíblico” por parte dos conselheiros[2], na maioria dos manuais sobre aconselhamento há uma ênfase humanista e secular sobre o que e aconselhamento pastoral e seus princípios, e pouco se focaliza nos pressupostos teológicos e bíblicos para uma ação eficaz no campo do aconselhamento.

Geralmente se estabelece como regra o ouvir o consulente, mas se levar em consideração o que as Escrituras tratam daquela patologia ou sintomática que o consulente trás à sessão de aconselhamento. Então os princípios básicos de todo aconselhamento pastoral deve ser o que a Bíblia fala a respeitos de doutrinas básicas e pressupostas nas Escrituras Sagradas, tais como: (1) Depravação  Total do homem – o homem nasce em pecado; (2) a Salvação é pela graça mediante à fé; estes princípios são norteadores se efetivamente buscamos mudanças no coração dos consulentes.

Atitudes de empatia são fundamentais também no processo do aconselhamento pastoral. Ouvir o consulente indagar e confrontar (caso use-se o método de nouthesia para o aconselhamento).

II – ACONSELHAMENTO: PROCESSOS E SEUS LIMITES.

Outro aspecto importante a ser considerando no Aconselhamento cristão é como lidar com o processo, limites e fronteiras neste campo. Consideraremos este tópico observando que os limites não se limitam apenas em ouvir ou expressar direção; mas trata-se de cum conjunto que aborda ambas as coisas.

Os limites estão baseados na quantidade de  informações que colhe-se na seção de aconselhamento, bem como na quantidade de informação que se tem para levar no ato do aconselhamento; estas informações, podem estabelecer o curso de ações e limitações, a saber: (a) As Escrituras; (b) as experiências pessoais; (c) as energias propensas do coração pecaminoso.[3] Ouvir o consulente de forma integral é o primeiro passo a ser praticado no processo do aconselhamento.

As fronteiras que precisam ser traçadas no aconselhamento pastoral devem ser aquelas que limitam entram na abordagem que concorre com a revelação de Deus nas Escrituras. Ou seja, a psicoterapia e psicologia – o conselheiro bíblico jamais deve fazer uso da abordagem delas.

II – O ACONSELHAMENTO CRISTÃO – E OS PRINCIPIOS PARA AJUDAR O CONSULENTE.

            Há uma variedade de princípios que podem ser usados no aconselhamento Bíblico, entretanto, há aqueles que são fundamentais para o desempenho do aconselhamento:

1.     Ouvir: É necessário estabelecer o principio de ouvir o consulente, isto possibilita a conhecermos mais os problemas enfrentados e oferecer uma diretiva para resolver;

2.     Demonstrar Interesse: É necessário o conselheiro ter interesse pelo seu consulente. Um interesse verdadeiro e eficaz.

3.     Tentar compreender: Uma das frustrações dos consulentes é a falta de empatia dos conselheiros que evitam querer compreender a sintomática que vive o consulente.

4.     Oferecer orientações bíblicas: O conselheiro é orientador nas Escrituras.



[1] ADAMS, Jay E. Teologia do Aconselhamento Cristão – Mais que Redenção. Tradução: Samuel Fernandes do Nascimento Jr. Eusébio, CE: Editora Peregrino, 2016, p.13

[2] ADAMS, Jay E. Manual do Conselheiro Cristão. Tradução: João Bentes, São José dos Campos, São Paulo: Editora Fiel, 1982, p.43.

[3] ADAMS, Jay E. Manual do Conselheiro Cristão. Tradução: João Bentes, São José dos Campos, São Paulo: Editora Fiel, 1982, p.33