quinta-feira, 20 de julho de 2023

CRISTO DESCEU AO HADES?

 

CREDO APOSTÓLICO: CRISTO DESCEU AO HADES?

Rev. João Ricardo Ferreira de França

INTRODUÇÃO:

            O nosso estudo neste momento compete considerar a declaração credal que diz “desceu ao hades” ou “descendi ad inferna[1], esta expressão tem sido debatida ao longo da história. A motivação desse debate é que tal expressão não pertence ao texto inicial do Credo Apostólico.

            A origem desta expressão é incerta! Kelly lembra que o problema desta expressão é que ela levanta toda discussão sobre o que de fato ela ensina:

Nenhuma das modificações do R que consideramos até agora pode ser considerada de importância decisiva. No entanto, há uma que realmente adiciona algo de substancial ao segundo artigo do credo e que envolve dificuldades exegéticas de ordem média - ELE DESCEU AO INFERNO (descendit ad inferna).[2]

Michael Horton em seu comentário ao Credo Apostólico toma esta expressão como sendo idiomática significando que o sofrimento de Cristo na cruz foi o seu inferno.[3]Esta é uma abordagem que boa parte dos reformados seguem. Inclusive Barth, de forma surpreendente, segue esta linha de interpretação.[4] Esta declaração que Cristo “desceu ao inferno”, lembra-nos, Berkhof “não é tão antiga e nem universal no credo”[5].

I – A HISTÓRIA DESTA EXPRESSÃO NO CREDO.

            A principal dificuldade que se tem com esta expressão “desceu ao inferno” é que ela não se encontra nas versões mais antigas do Credo Apostólico. Witsius, em suas dissertações sobre o Credo Apostólico,  afirma:

É digno de nota que, antigamente, aqueles credos que possuíam o artigo sobre a descida de Cristo ao inferno, não continham o artigo relativo ao seu sepultamento, e aqueles nos quais o artigo com respeito à descida ao inferno foi omitido, de fato continham o artigo relativo ao sepultamento.[6]

Se seguirmos esta abordagem de Witsius então aqui o somente enfatiza a morte de Cristo. “A palavra no original empregado no Credo é ínferos. A frase traduzida por “desceu ao inferno” apareceu pela primeira vez em uma das versões do Credo de Rufino, em 390, e depois não apareceu novamente em qualquer versão do credo, até o século VII”[7]. O próprio Rufino explica a razão desta inclusão quando declara que

a intenção da altearão do Credo em Aquiléia não foi a de acrescer uma nova doutrina, mas a de explicar uma antiga e, portanto, o credo de Aquiléia omitiu a cláusula foi crucificado, morto e sepultado e a substituiu por uma nova cláusula, descendi ad inferna[8]

No Credo de Aquiléia a declaração do símbolo apostólico era assim: “Creio em Jesus Cristo, seu Único Filho, nosso Senhor. O qual foi concebido por obra do Espírito Santo, nasceu da virgem maria padeceu sob Pôncio Pilatos foi crucificado, morto e sepultado,” ou terminava com “desceu ao inferno”; então esta expressão não fazia parte do Credo Apostólico original.

            Na verdade esta expressão “desceu ao hades” fazia uma permuta com “foi crucificado, morto e sepultado”. A expressão ora aparecia no lugar da expressão “crucificado, morto e sepultado”.  Ora era somente a expressão desceu ao hades que aparecia.

            Héber Carlos de Campos nos lembra o cerne do problema sobre este assunto quando ele mesmo diz:

Enquanto houve a omissão da cláusula “sepultado” e o aparecimento da cláusula substituta “desceu ao Hades” ou vice-versa, não surgiu nenhum problema teológico novo. Este apareceu quando as duas expressões acima apareceram no mesmo Credo, uma após a outra. Por volta do século VII, a cláusula descendi ad inferna apareceu em outros credos, mas como um acréscimo a crucificado, morto e sepultado e não como expressão substitutiva dessas coisas acontecidas a Cristo.[9]

Historicamente a igreja sempre entendeu que a expressão “desceu ao inferno” se trata de uma referência à crucificação, a morte e sepultamento de Cristo Jesus. A problemática se deu quando esta expressão apareceu após as expressões anteriores. E, novas ideias teológicas foram trazidas, e ensinos errados foram propagados a partir da inclusão dessa clausula.

II – AS CONCEPÇÃO TEOLÓGICAS NA COMPREENSÃO DA EXPRESSÃO “DESCEU AO INFERNO” NO CREDO APOSTÓLICO.

Consideremos agora as várias concepções teológicas sobre esta expressão que se tem no credo apostólico; em linhas gerais temos, quatro tradições cristãs que interpretam de modo diverso a expressão: 1. Católica Romana; 2. Luterana; 3. Anglicana e 4. Calvinista.

2.1 – A Concepção Romanista:

A Igreja Católica Romana a entende no  sentido de que, após a Sua morte, Cristo foi para o Limbus Patrum (paraíso dos pais), onde os santos do Velho Testamento estavam aguardando a revelação e aplicação da Sua obra redentora, pregou-lhes o Evangelho e os levou para o céu.

Como afirma o catecismo tradicional da Espanha, há quatro infernos: o inferno dos condenados, o purgatóriooel limbo dos infantes e o limbo dos justos ou seio de Abraão. O inferno ao que Cristo desceu não é o dos condenados, mas o lugar onde moravam as almas dos justos que morreram antes de ser consumada a redenção, e que recebe o nome de limbo dos justos (limbus Patrum).”[10]

2.2 – A Concepção Luterana.

Os luteranos consideram a descida ao hades como o primeiro estágio da exaltação de Cristo. Cristo foi ao mundo inferior para revelar e consumar a Sua vitória sobre Satanás e sobre os poderes das trevas, e para pronunciar a sentença de condenação deles. Alguns luteranos localizam essa marcha triunfal entre a morte de Cristo e Sua ressurreição; outros, após a ressurreição.

2.3 – A Concepção Anglicana:

A Igreja da Inglaterra sustenta que, enquanto o corpo de Cristo estava no túmulo, a alma foi ao hades, mais particularmente ao paraíso, a habitação das almas dos justos, e lhes fez uma exposição mais completa da verdade.

2.4 – A Concepção Calvinista:

João Calvino interpreta a frase metaforicamente, entendendo que se refere aos sofrimentos penais de Cristo na cruz, onde Ele sofreu realmente as angústias do inferno.

A interpretação do catecismo de Heidelberg é parecida. Segundo a posição reformada (calvinista) usual, as palavras se referem não somente aos sofrimentos de Cristo na cruz, mas também às agonias do Getsêmani.

III – ANALISANDO OS TEXTOS BÍBLICOS USADOS.

            As diversas tradições possuem abordagens significativas em prol da ideia que adotam sobre a declaração credal. E, usam algumas passagens para justificar que a descida ao hades é uma doutrina oriunda das escrituras.

a)     Efésios 4.9: “ora o que quer dizer subiu, senão que também havia descido até as regiões inferiores da terra?”. Esta passagem é evocada porque a expressão “regiões inferiores da terra” como sendo sinônimo de Hades. Aqui a referência seria “à vinda de Cristo à terra”[11] Calvino rejeita de forma contundente a ideia de que estas palavras significam “purgatório ou inferno”, e declara que estas palavras “nada mais significam que a condição presente na terra”[12], pois, boa parte dos comentadores “entende que a expressão se refere simplesmente à terra”[13]

b)     1ª Pedro 3.18-19:  Esta tem sido a passagem de maior debate nesta questão. A interpretação de que Cristo foi no inferno e pregado aos pais ou aos perdidos tem grande força no meio evangélico de modo geral. Porém, na tradição Reformada essa passagem entende-se que se refere a Cristo pregou aos contemporâneos de Noé, pois, era pregador da justiça de Cristo. (2ª Pedro 2.4-5). Quando Pedro fala dos espíritos em prisão, está se referindo aos contemporâneos de Noé. Que ouviram a mensagem de Cristo através dele, mas rejeitaram, sendo assim espíritos (vidas) em prisão.

c)     1ª Pedro 4.4-6:

Por isso, difamando-vos, estranham que não concorrais com eles ao mesmo excesso de devassidão, os quais hão de prestar contas àquele que é competente para julgar vivos e mortos; pois, para este fim, foi o evangelho pregado também a mortos, para que, mesmo julgados na carne segundo os homens, vivam no espírito segundo Deus.

O foco da discussão se dá no versículo 6 desta passagem. No contexto da passagem Pedro exorta a seus leitores a que não “vivam o restante de suas vidas na carne para as luxúrias  dos homens, mas para a vontade de Deus mesmo que isso ofendam aos seus ex-companheiros”, e, mesmo que eles sejam “ultrajados por eles terão que prestar contas a Deus” que está sempre pronto para “julgar vivos e mortos” – os mortos aqui são os que ouviram a pregação enquanto estavam vivos, pois, o propósito desta pregação era, em “parte, que fossem julgados na carne segundo os homens”[14]

CONCLUSÃO:

            E aqui terminamos o estágio de humilhação de nosso redentor Jesus Cristo. Vimos que a descida ao Hades de Cristo significa que o seu sofrimento na cruz foi o seu hades que o levou a mansão dos mortos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] A forma “ínferos” é usada hoje como uma referência ao lugar dos mortos, e não dos condenados.

[2] KELLY, J.N. D. Early Cristian Creeds .New York: Editora Continuum, 1972,.p378

[3] HORTON, Michael. Creio – Redescobrindo o Alicerce espiritual. São Paulo: Editora Cultura Cristã,2000,,p.100

[4] KARL, Barth. Credo – Comentário ao Credo Apostólico. São Paulo: Fonte Editorial, 2010, p.95.

[5] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1990, p.313

[6] Herman Witsius, Dissertations on The Apostle’s Creed, vol. II, reimpress„o (Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1993), 140.

[7] FERREIRA, Franklin. O Credo Apostólico – As Doutrinas Centrais da Fé Cristã. São José dos Campos – SP: Editora Fiel, 2015,p.177.

[8] CAMPOS, Héber Carlos de. “Descendit Ad Inferna” Uma Análise da Expressão Desceu Ao Hades No Cristianismo Histórico. In: Fides Reformata 4/1 (1999). São Paulo: Mackenzie, 1999, p.1-21

[9] Idem.

[10] OTT, Ludwig. Manual de Teología Dogmática, p. 301.

 

[11] ROGERS, Cleon; FRITZ, Leon. Chave Linguistica do Novo Testamento Grego. São Paulo: Editora Vida Nova, 1985, p.393

[12] CALVINO, João. Efésios – comentário bíblico. São José dos Campos – SP: Editora Fiel, 2007, p.93.

[13] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1990, p.313

[14] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1990, p.314

sexta-feira, 14 de julho de 2023

EU CREIO - UMA INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO CREDO APOSTÓLICO

 

EU CREIO

Rev. João França*

INTRODUÇÃO:

            Os cristãos reformados de modo geral são acusados de romper com a catolicidade da igreja. O teólogo Presbiteriano B.B. Warfield relembra essa ruptura em seu estudo sobre O Significado dos Padrões de Fé de Westminster como um Credo, ele declara:

Não há separação tamanha na história do pensamento humano como a fenda aberta entre a era apostólica e a imediatamente seguinte. Passar dos últimos escritos apostólicos para as primeiras composições de penas cristãs não-inspiradas é cair de uma altura tão vertiginosa que não surpreenderia se nos levantássemos aturdidos e quase incapazes de determinar nosso paradeiro. Aqui está a grande falha — como os geólogos diriam — na história da doutrina cristã. Há evidência de continuidade — mas, oh, quão inferior é o nível! O rico filão da religião evangélica quase se esgotou; e, embora haja massas de origem apostólica por todo lugar, nada são além de fragmentos, e claramente são apenas o talude que caiu do penhasco acima e se espalhou pela superfície inferior[1]   

Assim, também tem sido em relação ao Credo Apostólico. Muitos crentes ignoram completamente o seu uso, ou até mesmo a sua importância na construção de um cristianismo mais sólido que oferece resposta as inquietudes de nosso tempo. Nessa ruptura a igreja fica à mercê do subjetivismo experiencial que nos legou o pentecostalismo e todos os sistemas emotivos sem uma clara racionalidade da fé!

A palavra “Creio” no inicio do credo é uma espécie de preâmbulo. Isto é significativo, pois, esta palavra permeia a totalidade do credo “creio em Deus”, “Creio Jesus Cristo” e “Creio no Espírito Santo”. Isso implica que o ato de crer conforme o credo persegue a unidade de um sistema que exalta ao Deus Trino. Como nos lembra Franklin Ferreira que o “credo exige que eu, pessoalmente, confie de fato em Deus, que vem a nós como Pai, Filho e Espírito Santo.”[2]

I – A REALIDADE DA FÉ

            Quando nós lemos e declaramos “eu creio em Deus” se evidência diante de nós a realidade da fé. Ela persegue o seu objeto que é o Deus-trino! Então, cabe-nos a pergunta o que significa crer segundo o credo? Ou ainda o que se pode dizer do sentido da declaração “eu creio”? O que isto significa?

1.     Significa a rejeição da incredulidade:

O teólogo suíço Karl Barth declara que a fé é uma decisão na qual se manifesta a “rejeição da incredulidade”[3] a incredulidade do ponto de vista credal é a falsa concepção sobre Deus e sua revelação. Aqui rejeita-se tudo o que é contrário a revelação de Deus nas Escrituras.

O credo exige o ato do assentimento religioso para com a fé. E, nisto se estabelece a rejeição da incredulidade, e tal ato é uma resposta a revelação divina, não é isto que ensina o evangelho? “Eu creio! Ajuda-me na minha falta de fé!” (Marcos 9.24).

Isto não significa que ao rejeitar a incredulidade o homem provoca de si mesmo a fé. Porque peremptoriamente as Escrituras ensinam que a fé procede de Deus como um dom gracioso. “Portanto, tal fé que afirma ‘creio em Deus’, é um dom concedido e sustentado pelo Espírito Santo”[4] “A fé se apega à promessa de Deus, concorda com ela e assegura ao crente que Deus é graciosamente inclinado a ele em Cristo Jesus.”[5]A Escritura de forma clara apresenta a fé como sendo de fato um dom que Deus outorga aos homens (Atos 13.48; Efésios 2.8-9; Hebreus 12.2).

2.     Significa a afirmação da verdade.

Quando se declara “eu creio” no credo se está fazendo uma afirmação da verdade. A fé expressa no credo exige dos crentes afirmem a verdade; como bem coloca J.I.Packer: “A fé cristã significa ouvir, observar e fazer o que Deus diz”[6], isto lembra que é “essencial que os crentes entendam a necessidade de confessar sua fé” (Mateus 10.32; Romanos 10.9) e essa confissão ou afirmação também se dá quando “recitamos o credo no culto”.

E, deve-se lembrar que a essa fé deve “vir acompanhada de uma vida de compromisso com os valores do reino de Deus”.[7] Na declaração credal nós lidamos com a questão da fé como a homologação da verdade de Deus.

II – O CREDO E AS ESCRITURAS.

A segunda pergunta a ser feita é qual é a relação do Credo com as Escrituras? Alguém já disse que devemos lembrar que “o Credo é derivado da Sagrada Escritura. Cada linha é baseada nela. Em síntese, o Credo é o resumo daquilo  que é absolutamente essencial e inegociável para a fé cristã, de acordo com a Sagrada Escritura.”, e como pessoas tementes como “homens e mulheres em Cristo, somos chamados a dizer: ‘creio’”[8]

Toda a doutrina apresentada no Credo Apostólico é derivada das Escrituras e tem elas como fundamento único e sólido. Isto nos ensina que o Credo é a resposta à revelação de Deus dada ao homem; esta é uma resposta concatenada em proposições claras e simples.

Essa relação pode-se ser notada quando consideramos cada declaração que é feita no Credo Apostólico e a base bíblica usada para as mesmas:

1.      Creio em Deus Pai Todo-poderoso, o Criador dos céus e da terra (Gênesis 17.1 e I Pedro 1.2). Afirmação de que tudo o que existe foi criado por Deus. Uma base para a doutrina criacionista. 2. E em Jesus Cristo, o seu único Filho, o nosso Senhor (João 3.16 e II João 1.3); Jesus Cristo é o Filho de Deus, unigênito, pois não existe outro igual. 3. que foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria (Mateus 1.20); Declaração de que o nascimento virginal de Jesus foi conforme a profecia (Isaías 7.14). Este argumento foi incluído no Credo como resposta a heresias que diziam que Jesus não nasceu de forma milagrosa através de uma virgem, mas que seria um filho normal de José e Maria. O fato de reconhecer a virgindade de Maria até o nascimento de Cristo não significa idolatrá-la como santa nem mesmo negar que teve filhos após o nascimento de Jesus (Mateus 1.25 e Marcos 6.3). 4. padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado (Lucas 3.1 e 23.1-25);  Este dado foi incluído para marcar a data, ou período, visto que não existiam calendários. Era costume associar tempos ou épocas aos governantes em exercício. 5. e ao terceiro dia ressuscitou dentre os mortos (Marcos 9.31); Também para confirmar a doutrina da ressurreição de Cristo que também sofreu vários ataques de grupos Gnósticos que deturpava o surgimento de Cristo ressurreto em corpo dizendo que teria aparecido apenas em espírito 6. subiu ao céu e está assentado a direita de Deus Pai Todo-poderoso (Atos 1.10 e Hebreus 1.3); O poder de Cristo ressurreto sobre todas as coisas assumindo sua Divindade. 7. de onde virá para julgar os vivos e os mortos (Mateus 25.31-46 e II Timóteo 4.1). Jesus como supremo juiz de todos os seres humanos em todos os tempos. 8. Creio no Espírito Santo (João 14.26); A fé na pessoa do Espírito Santo como sustentador da igreja e de todos os cristãos. 9. na santa Igreja de Cristo católica, na comunhão dos santos (I Coríntios 10.16 e 12.27); A Igreja como Corpo de Cristo, representando a presença Divina na terra como agentes do Reino de Deus. 10. no perdão dos pecados (I João 1.7-9); O perdão de Deus para todos os pecadores. 11. na ressurreição do corpo (Filipenses 3.10,11); A crença na ressurreição é reafirmada combatendo heresias gnósticas de que não é necessário reviver o corpo5. 12. e na vida eterna. Amém. (João 6.46). A vida além da morte, ou a eternidade para todo o sempre para aqueles que serão salvos.[9]

III – A FÉ É COMUNITÁRIA

            Outro aspecto importante sobre a declaração credal “Eu Creio” – é o aspecto comunitário da fé confessada. O credo dos apóstolos individualiza a fé quando usa esta construção, porém, como um texto litúrgico aponta para a fé da comunidade, isto tanto é verdadeiro que os credos posteriores conjugam sua nota inicial na primeira pessoa do plural declarando: “Cremos”.

            Por que o Credo dos Apóstolos deve ser encarado como a expressão de fé da comunidade? Bullinger responde que aqui encontramos “um breve sumário da verdadeira fé”[10] Devemos lembra que “os crentes fiéis, todos os domingos em todo o mundo, recitam uma ou outra forma dos conhecidos credos cristãos, mas essa rotina nem sempre os inspira a refletir sobre o contexto de sua fé proclamada publicamente”.[11]

A escritura sempre apresenta o povo de Deus reunidos para confessar e declarar sua fé de forma pública. No Antigo Testamento é encontro o chamado “Shemá” conforme lemos em Dt. 6.4-9. O verbo ouvir que está no imperativo no hebraico é “[m;Þv.”- shemá –e tem o sentido de prestar atenção, significa ouvir, mas não é um mero escutar “envolve a ideia de ouvir com atenção”.[12]

O texto citado acima era o primeiro a ser lido de um conjunto de leituras confessionais que carregavam a mesma tônica. O texto de Deuteronômio tinha por objetivo apresentar as seguintes verdades:

a) Que existe apenas um Deus

b) Que este Deus merece ser amado com todo o ser

c) Que estas verdades deveriam perpetuar nas gerações posteriores.

Há também outros dois textos que nos mostram que havia um credo na Igreja veterotestamentária no ato de culto. São eles: Dt.11.13-21 e Nm 15.37-41. Este “Shemá” era o credo do povo, somos informados que o “shemá era repetido três vezes ao dia”[13] pelo povo do pacto; também somos cientes de que este credo judeu era usado liturgicamente na sinagoga.[14]

No Novo Testamento o conceito de confessionalidade é mais presente e bem definido. Isto significa que a Igreja sempre elaborou o seu conjunto de doutrinas a partir da revelação de Deus. No texto neotestamentário lidamos com um grande material que trata da existência de um grupo de verdades a serem cridas e obedecidas.

Estas verdades são conhecidas como “Tradições” que no grego é “paradosis”, este vocábulo significa “transmitir”, “entregar”, “tradição”. A palavra é formada de uma proposição grega “Para” que indica “junto a”, “ao lado de” mais o verbo “didomi” que de acordo com o contexto tem uma gama de significados “dar”, “trazer”, “conceder”, “causar”, “colocar”. Este conceito é percebido pelo texto bíblico de 2 Ts. 2.15: “Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa.”

Em suma podemos dizer que no “Credo a Igreja curva-se perante a Deus [...]”[15] isto implica em observar que “se o Credo é o resumo da Sagrada Escritura, quando nós confessamos o Credo, nós nos prostamos diante de Deus, nós nos ajoelhamos diante daquilo que é essencial e é matéria de revelação”[16] e a comunidade em resposta recebe e aceita tal revelação.

 

 

 

 



* O autor é Ministro da Palavra e dos Sacramentos na Igreja Presbiteriana do Brasil. Atualmente é pastor na Igreja Presbiteriana de Riachão do Jacuípe – BA. Foi professor de Línguas Bíblicas (Hebraico e Grego) no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil – SPFB (Recife), também foi professor de Hermenêutica, filosofia e Exegese de Atos no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil (Patos – PB), também foi professor de Filosofia e Ética na Faculdade Regional de Riachão do Jacuípe – BA.; Atualmente é professor de Antigo Testamento no Instituto Teológico Reformado do Brasil (ITRB – Petrolina) e professor de Hermenêutica no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil – SPFB (Rondônia). É também professor de Exegese do Antigo Testamento no Instituto Teológico Reformado do Brasil-Angola (ITRBA).

[1] Apud, ALLEN, Michael; SWAIN, Scott R. Catolicidade Reformada – A Promessa de recuperação para a teologia e a interpretação bíblica. Brasília: Monergismo, 2021, p.15-16.

[2] FERREIRA, Franklin. O Credo dos Apóstolos – As Doutrinas Centrais da Fé Cristã. São José dos Campos – SP: Editora Fiel, 2015, p.33.

[3] BARTH, Karl. Credo – Comentário ao Credo Apostólico. São Paulo: Editora Fonte Editorial, 2010, p.18.

[4] FERREIRA, Franklin. O Credo dos Apóstolos – As Doutrinas Centrais da Fé Cristã. São José dos Campos – SP: Editora Fiel, 2015, p.38.

[5] BEEKE, Joel R. A Busca da Plena Segurança – O Legado de Calvino e seus Sucessores. Recife: Os puritanos, 2003, p.41.

[6] PACKER, James I. Affirming the Apostle’s Creed. Wheaton, Illinois: Crossaway Books, 2008,p.27

[7] CASANOVA, Humberto; STAM, Jeff. El Credo Apostólico – Manual del Maestro. Grand Rapis: Libros Desfío,1998,p.14

[8] FERREIRA, Franklin. O Credo dos Apóstolos – As Doutrinas Centrais da Fé Cristã. São José dos Campos – SP: Editora Fiel, 2015, p.41

[10] BULLINGER, Hery. The Decades of Henry Bullinger – Volume One. Grand Rapis: Reformation Heritage Books, 2004, p.122.

[11] ASHWIN-SIEJKOWSKI, Piotr. The Apostles’ Creed And Its Early Christian Context. New York, NY: T&T Clark, 2009, p.3

[12] AUSTEL, Hermann J. Shãma’ In: HARRIS, R.L. ed. Theological Wordbook of the Old Testament, 2a ed., Chicago: Moody Press, 1981, Vol. 2, pp.938-939. 

[13] UNTERMAN, Alan. Dicionário Judaico de Lendas e Tradições. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992, p.242. 

[14] COSTA, Herminsten Maia Pereira da. Teologia do Culto. São Paulo: Editora PES, 1985, p.19 

[15] BARTH, Karl. Credo – Comentário ao Credo Apostólico. São Paulo: Editora Fonte Editorial, 2010, p.21

[16] FERREIRA, Franklin. O Credo dos Apóstolos – As Doutrinas Centrais da Fé Cristã. São José dos Campos – SP: Editora Fiel, 2015, p.41-42

quarta-feira, 12 de julho de 2023

CATECISMO MAIOR DE WESTMISNTER: A NATUREZA DA ORAÇÃO

 

A NATUREZA DA ORAÇÃO

Rev. João França.

PERGUNTA 178  - O QUE É ORAÇÃO? – RESPOSTA: Oração é um [santo] oferecimento de nossos desejos a Deus, em nome de Cristo e com o auxilio do Espírito, e com a confissão de nossos pecados e um grato reconhecimento de suas misericórdias ”

INTRODUÇÃO:

            Vivemos em um mundo que não quer conversar mais com Deus. Os relacionamentos nos dias hoje são informatizados, são tecnocráticos, e a oração tem sido relegada a um plano bem inferior da comunicação. Esta semana é uma semana que estaremos estudando sobre oração, conhecendo mais sobre este assunto a luz dos padrões confessionais de nossa igreja. Na nossa aula de hoje vamos considerar a natureza da oração.

I – O QUE É ORAÇÃO?

            Geralmente as pessoas definem oração como sendo uma conversa com Deus. E às vezes nos perguntamos como pode alguém ignorar a oração, se ela é uma conversa com Deus? Sproul diz que “a oração é o segredo da santidade”[1] O Breve Catecismo de Westminster nos diz que a oração é “um santo oferecimento a Deus de nossos desejos”; então, oração e santidade estão relacionadas! Não devemos nos esquecer deste princípio.

            Oração é oferecimento. Oferecemos nossas necessidades a Deus, nossas vidas, nossos sonhos, nossos projetos tudo que o temos e o que somos estão sempre diante de Deus em oração. Em outras palavras a oração “tem um lugar vital na vida do cristão”[2] lembre-se que na oração expressamos confiança em Deus e derramamos diante dele nosso coração: “Confiai nele, ó povo, em todo tempo; derramai perante ele o vosso coração; Deus é o nosso refúgio. (Salmos. 62:8 ARA)”.

II –  A ORAÇÃO É TRINITÁRIA.

            Outro aspecto importante que devemos estudar sobre a natureza da oração é que ela é trinitária em sua formulação e apresentação. O catecismo Maior de Westminster declara que a oração é um oferecimento ao Pai,  em nome do Filho e com o auxílio do Espírito Santo. A dimensão trinitária é quase desconsiderada na prática da oração. Nos esquecemos que na oração nos digerimos primeiramente ao pai conforme vemos em Mateus 6.9 “Portanto, vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; (Mat 6:9 ARA)” .

            Na dimensão da oração oferecemos a Deus pai nossas necessidades urgentes e certamente ele nos ouve. Isto nos fala do cuidado paternal de Deus sobre seus filhos que recorrem à oração com súplicas ao pai.

            A dimensão da oração trinitária envolve também a Pessoa do Filho. O catecismo ressalta que oração deve ser e [...em nome do Filho] isto nos fala da obra mediadora de Cristo Jesus na oração. O próprio senhor Jesus ensinou sobre isso quando tratou da dinâmica da oração conforme lemos em João 14.13-14: “13 E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. 14 Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. (João. 14:13-14 ARA)”. As nossas orações são aceitas porque nós temos um mediador pactual, e este, é o Senhor Jesus Cristo; o evangelho de João deixa isso muito claro no capítulo 16.13-14: “Naquele dia, nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome. 24 Até agora nada tendes pedido em meu nome; pedi e recebereis, para que a vossa alegria seja completa.  (João 16:23-24 ARA)”

            A terceira dimensão da oração trinitária é o auxílio do Espírito Santo. Nesta dimensão somos relembrados pelo Catecismo Maior de que ainda que não saibamos como  orar, o Espírito Santo sempre assiste ao crente que ora a Deus. Esta é uma grande dúvida de nosso povo; muitos se encontram tímidos em orar porque acham que não sabe orar, como o pastor, como o presbítero ou como o diácono; mas, na verdade, a Palavra de Deus nos ensina que ninguém sabe orar de um modo aceitável a Deus, a não ser que seja socorrido, ou na linguagem bíblica assistido pelo Espírito Santo. Este ensino é claro também na palavra de Deus em Romanos 8.26: “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis. (Romanos 8:26 ARA)”.

III – A ORAÇÃO TEM UMA DUPLA NATUREZA GERAL

            O catecismo apresenta-nos a dupla natureza geral da oração: (a) uma oração de Confissão; (b) é uma oração de gratidão. Toda oração do cristão envolve estes dois elementos importantes.

Ao se aproximar do senhor em oração estamos cônscios de que devemos oferecer nela: “a confissão de nossos pecados” conforme aprendemos na oração do Senhor “perdoa-nos” (Mateus 6.12). Sabendo que ele é “fiel e justo” para nos perdoar (1ª João 1.9). Thomas Ridgley, em sua obra A Body of Divinity [O corpo da Divindade] que é o primeiro comentário escrito sobre o Catecismo Maior de Westminster, sobre esta questão 178 declara:

É necessário insistir nisso, na medida em que somos obrigados a obedecer à vontade revelada de Deus; não obstante, por causa de nossa depravação e fraqueza, nada podemos fazer de bom sem sua ajuda, o que não é de se esperar, a menos que seja humildemente desejado por ele; e isso é o que geralmente chamamos de oração; que sendo realizado por criaturas que não são apenas indigentes, mas indignas, isso deve ser reconhecido e, portanto, devemos, em oração, confessar o pecado como o principal fundamento e razão dessa indignidade. (RIDGLEY, 1815, Volume 4, p.234)

A segunda consideração está na gratidão ou na linguagem confessional do catecismo: “ um grato reconhecimento de suas misericórdias”. Na oração devemos reconhecer as misericórdias do Senhor sobre nossas vidas, pois, são elas as causas de não sermos conseguidos (Lamentações de Jeremias 3.22). Lembre-nos do que disse o salmista: “Vamos à presença dele com ações de graças”(Salmos 95.2-3), ou como coloca-nos Paulo em Timóteo: “Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens”(1ª Timóteo 2.1)

 CONCLUSÃO:

            Que as nossas orações refletiam estas verdades que aprendemos, pois, sabemos que a oração é um oferecer a Deus de todas as nossas necessidades legítimas e desejos legítimos diante de Deus. Compreendendo que o Deus Trino está a atender as nossas oraçãos que revelam nossa necessidade da graça perdoadora bem como um coração grato diante de Deus.



[1] SPROUL, R.C. A oração muda as coisas? São José dos Campos: Editora Fiel, 2012, p.7

[2] Ibid, p.8

terça-feira, 11 de julho de 2023

AS INSTITUTAS DA RELIGIÃO CRISTÃ DE CALVINO: SEU CONTEXTO HISTÓRICO.

 AS INSTITUTAS DA RELIGIÃO CRISTÃ DE CALVINO: SEU CONTEXTO HISTÓRICO.

Rev. João Ricardo Ferreira de França

INTRODUÇÃO:

             A história da igreja tem personagens significativos em seu rol. Há ilustres nomes ao longo do tempo desde os grandes heróis da fé conforme registra Hebreus capítulo de número onze até missionários que são martirizados por testemunhar sua fé! Nessa tão densa nuvem de testemunhas, de heróis, de homens compromissados com o Evangelho, existe um homem conhecido como João Calvino (1509-1564), no cenário atual tem se escrito uma gama de biografias, artigos, teses sobre a sua pessoa e sua vida.

            A teologia de Calvino tem sido discutida e debatida em duas fontes principais, a primeira, é a sua coleção de comentários bíblicos que abarcam tanto o Antigo quanto o Novo Testamentos – uma fonte de consulta e pesquisas constantes; a outra é aquilo que tem sido considerada a opus Magnum de Calvino:  As Institutas da Religião Cristã. Neste estudo pretendemos considerar o contexto no qual as Institutas foram escritas. A razão para este estudo é que muitos ditos herdeiros da fé Reformada ou Calvinista passam pelo seminário teológico sem nunca ter uma cadeira especifica (uma disciplina) que aborda o conteúdo desta obra de João Calvino.

I – CALVINO: SUA VIDA.

            O reformador francês nasceu no dia 10 de julho de 1509 na cidade de Noyon, na França. Seu pai era um administrador financeiro do palácio do bispo católico da diocese de Noyon (LAWSON, 2007, p.18). O pai o havia criado para o sacerdócio, pois, naquele tempo isso era bastante rentável. Calvino ingressou na Universidade de Paris com o objetivo de estudar teologia, isto aos 14 anos de idade, para ter a preparação formal, e então, torna-se um sacerdote católico romano; aos 17 anos Calvino graduou-se em mestre em ciências humanas (Ibid, p.19).

            O pai de Calvino, após, um desentendimento com as autoridades eclesiásticas de Noyon decide colocar o filho para estudar Direito na universidade de Orleáns (1528), Calvino como um filho obediente, assim o fez. Porém, o Pai de Calvino morre em 1531; então, o futuro reformador mudou a direção de seus estudos para a literatura clássica que era a sua paixão. Seu primeiro comentário foi sobre uma obra clássica “De Clementia” do filósofo romano Seneca. Este comentário de Calvino foi a sua tese de doutorado do futuro teólogo reformador de Genebra. (LAWSON, 2007, p.20)

II – O CONTEXTO DAS INSTITUTAS DA RELIGIÃO CRISTÃ

            A conversão de Calvino à fé evangélica foi uma súbita conversão a Cristo, “onde as amarras do papado”, conforme ele descreve em seu prefácio ao comentário do livro de Salmos, esta conversão ele a descreve de um modo quase que poético:

Minha mente, que, a despeito de minha juventude estivera por demais empedernida em tais assuntos, agora estava preparado para uma atenção séria por uma súbita conversão, Deus transformou-a e a trouxe-a à docilidade (GEORGE, 1994, p.31)[1]

            A Conversão de Calvino deu um novo ar as perspectivas do avanço da Reforma tanto em Genebra como na França.

a)     O Nascimento das Institutas:

A primeira edição das Institutas foi em 1536.  Desde o princípio deve-se ressaltar que o surgimento desta obra se deu pelo incentivo de um amigo de Calvino chamado Louis du Tillet, Calvino ficou certa vez hospedado em sua casa onde produziu “grande parte de seu livro as institutas”, porém, este amigo de Calvino posteriormente se voltou para o romanismo.[2]

 O próprio Calvino escreveu como uma cartilha para instruir os cristãos novos na fé. Ela (as institutas) alguns anos após o fracasso literário de Calvino com a obra “De Clementia” este datado de 1532. A obra de Calvino o “De Clementia” foi uma espécie de desapontamento para seu autor, e, até mesmo em sacrifícios financeiros não compensados, um evidente fracasso, por tanto. (FERREIRA, 1985, p.142) O livro não se vendia. “Quase ninguém tomou conhecimento de sua publicação.” (HALSEMA, 2009, p.28).

Alguém já disse que o caminho da providência gerou o “insucesso do ‘De Clementia’ para aniquilar o humanista que começara a repontar em Calvino e dele fazer um teólogo consumado que havia de ser, nas Institutas” (FERREIRA, 1985, p.142). E, assim, temos o nascimento das Institutas como uma cartilha para orientar aos cristãos protestantes na vida de piedade.

b. O Título da Obra:

Nos compete também considerar o título da Opus Magnum  de Calvino conforme considerada neste artigo. O título que o Reformador deu a sua obra magna foi: O Ensino Básico da Religião Cristã, compreendendo quase a soma total da piedade do que é necessário conhecer sobre a Doutrina da Salvação. Um Trabalho recém-publicado que muito merece ser lido por todos os que estudam a Piedade. Um Prefácio ao mais cristão Rei da França, oferecendo a ele este livro como uma Confissão de Fé do autor, Jean Calvin de Noyon(GEORGE, 1994, p.177)[3] O que se destaca no título no título da obra são quatro princípios básicos:

1.     As Institutas seria um manual básico da fé protestante;

2.     As Institutas visavam fomentar a piedade cristã nos caminhos da salvação;

3.     As Institutas tem um caráter apologético;

4.     As Institutas chegam com força de uma confissão de fé.

Estes princípios são tão notórios que que o próprio Calvino resumiu a obra, em sua primeira edição, dando-lhe o título de Breve Instrução, que serviu como uma confissão de fé da Igreja de Genebra.

III – A ESTRUTURA TEOLÓGICA DAS INSTITUTAS.

            Consideremos agora a estrutura teológica das Institutas da Religião Cristã. A primeira edição das Institutas consistia de uns poucos seis capítulos, que podem ser estruturados do modo com segue:

1.     A Lei de Deus – Uma Breve Exposição dos Dez Mandamentos;

2.     A Fé – Uma sucinta Exposição do Credo Apostólico;

3.     A Oração – Apresenta-se uma exegese da oração dominical (O Pai Nosso);

4.     Os Sacramentos - Calvino discute a doutrina do Batismo e da Eucaristia (Santa Ceia)

5.     Os Cinco Sacramentos adicionais -  Calvino de forma apologética refuta os cinco sacramentos adicionais dos romanistas;

6.     A Liberdade Cristã e a Igreja – Aqui o Reformador Francês  toca em três delicados temas para a época:

a.      A Liberdade Cristã e de consciência;

b.     A política Eclesiástica;

c.      O Magistrado Civil.

Com os passar dos anos a mente de Calvino e a sua pena foram maturando suas ideias e as Institutas foi ganhando corpo, chegando a uma edição final em 1559. Composta com quatro volumes com um esquema teológico mais abrangente e completo para a instrução na fé reformada. Seu esquema de organização ficou como segue:

VOLUME I – O CONHECIMENTO DE DEUS, O CRIADOR:

1.     O conhecimento duplo de Deus;

2.     As Escrituras;

3.     A Trindade;

4.     A Criação;

5.     A Providência.

VOLUME II – O CONHECIMENTO DE DEUS, O REDENTOR:

1.     A queda, Pecaminosidade do homem;

2.     A Lei;

3.     Antigo e o Novo Testamentos (sua relação);

4.     Cristo, o Mediador: Sua Pessoa (Profeta, Sacerdote, Rei) e a obra da expiação;

VOLUME III – O MODO PELO QUAL RECEBEMOS A GRAÇA DE CRISTO, SEUS BENÉFICIOS E EFEITOS:

1.     Fé e Regeneração;

2.     Arrependimento;

3.     Vida Cristã;

4.     Justificação;

5.     Predestinação;

6.     A última ressurreição (final)

VOLUME IV – OS MEIOS EXTERNOS PELOS QUAIS DEUS CONVIDA-NOS À SOCIEDADE DE CRISTO.

1.     A Igreja.

2.     Os Sacramentos

3.     O Governo Civil.

CONCLUSÃO:

            Este artigo visou apresentar em linhas gerais o contexto das Institutas da Religião Cristã de João Calvino. Mostrando o quatro geral de como esta obra foi desenvolvendo-se até chegar a sua forma atual nos dias hoje.

BIBLIOGRAFIA:

1.     BEEKE, Joel. R.; JONES, Mark. Teologia Puritana – Doutrina para a Vida. Tradução: Marcio Loureiro Redondo. São Paulo: Vida Nova, 2016.

2.     BEZA, Theodoro de. A Vida e a Morte de João Calvino. Tradução: Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Editora Luz para o Caminho, 2006.

3.     CALVINO, João. Comentário sobre o Livro de Salmos, Volume 1. Tradução: Valter Graciano Martins, São Paulo: Editora Fiel, 2009.

4.     COSTA, Hermisten Maia Pereira da. A Inspiração e Inerrância das Escrituras – Uma Perspectiva Reformada. São Paulo: Cultura Cristã, 1998.

5.     FERREIRA, Wilson de Castro. Calvino: Vida, Influência e Teologia, São Paulo: Luz Para o Caminho,1998.

6.     CALVINO, Juan. Instiución de La Religión Cristiana. Tradução: Cipriano de Valera.  Barcelona:1999

7.     GEROGE, Timothy. Teologia dos Reformadores.Tradução: Gérson Dudus e Valéria Fontana. São Paulo: Editora Vida Nova, 1994

8.     HALSEMA, Thea B.  Von. João Calvino Era Assim.   São Paulo: Editora Os Puritanos, 2009

9.     LAWSON, Steven. A Arte Expositiva de João Calvino. Tradução:Ana Paula Eusébio Pereira. São Paulo: Editora Fiel,2008.

 

 

 



[1] Veja-se CALVINO, João. Comentário aos Salmos, São José Campos – SP: Volume 1,2009, p.31.

[2] Veja-se TOKASHIKI, Ewerton B. Pastoreando o Rebanho de Deus – Os documentos de Ordem da Igreja de Genebra. Teófilo Otoni – MG: Credo Reformado Publicações, 2022, p.31 – nota de número 15.

[3] Ênfase nossa.