quarta-feira, 6 de julho de 2016

A GRANDE TRIBULAÇÃO E O ANTICRISTO

A GRANDE TRIBULAÇÃO E O ANTICRISTO
Mateus 24.1-11, 23-26.
Rev. João Ricardo Ferreira de França.
INTRODUÇÃO:
            O nosso Estudo neste momento se ocupa do tema que ainda envolve a Grande Tribulação. Nesta fase precisamos tratar da relação entre o tema da Tribulação e o surgimento do Anticristo.
            Alguns sistemas de escatologia propõem como temos visto que a Grande Tribulação é um evento futuro e que tudo relacionado a este assunto deve ser futurista; entretanto, conforme temos observado, o assunto em si tornam-se, mas lúcido se considerarmos A Grande Tribulação como sendo uma predição que ocorreu na destruição do Templo de Jerusalém no ano 70 AD.
            Vale salientar que o surgimento do Anticristo, segundo, Jesus precede algumas coisas apresentadas no sermão escatológico de Mateus 24. Entre as quais encontramos o crescimento da apostasia dentro da Igreja Cristã.
I – A APOSTASIA NA IGREJA PRIMITIVA SINAL DO ANTICRISTO.
            Geralmente se estuda a Igreja primitiva como se fosse uma igreja quase perfeita, mas quando nos aproximamos. A apostasia começou na igreja primitiva logo muito cedo conforme vemos em Atos 15. Onde a Salvação estava vinculada a obeservância de preceitos judaicos. A heresia em si não ficou neste contexto, o Apóstolo Paulo precisou lidar com este tema em Gálatas (Gálatas 1.6-9;2.5,11-21;3.1-3; 5.1-12).
            O Apóstolo Paulo exortou as igrejas de Éfeso a serem cautelosos com os falsos ensinos que poderiam levar a Igreja à Apostasia (Atos. 20.28-30).
            Quando o apóstolo João escreve o livro de Apocalipse revela-nos que muitas igrejas já haviam sucumbido à apostasia (Apocalipse 2.2,6,14-16,20-24; 3.1-4,15-18).  Devemos apresentar neste instante um quadro geral das heresias que infiltram-se na Igreja primitiva:
HERESIA
PASSAGEM BÍBLICA
Ressurreição final já havia ocorrido
2ª Timóteo 2.18
A Ressurreição era impossível
1ª Coríntios 15.12
Asceticismo e adoração aos anjos
Colossenses 2.8, 18-23; 1 Timóteo 4.1-3
Imoralidade e rebelião em nome da “liberdade”
2ª Pedro 2.1-3,10-22; Judas   4,8,10-13,16
A tolerância dos falsos mestres e “falsos apóstolos”
Romanos 16.17-18; 2 Coríntios 11.3-4, 12-15; Filipenses 3.18-19; 1 Timóteo 1.3-7; 2 Timóteo 4.2-5
Apostasia crescia a medida que o tempo passava
1ª Timóteo 1.19-20; 6.20-21; 2 Timóteo 2.16-18; 3.1-9,13; 4.10,14-16

II – O ANTICRISTO SEGUNDO O ENSINO DO NOVO TESTAMENTO.
            Toda a apostasia era encarada como sendo o “anticristo” este era o termo que os cristãos primitivos usavam para todo o desvio da doutrina e da fé da igreja. Mas, onde aparece o termo Anticristo na Bíblia? Uma questão importante precisa ser levantada aqui: o termo “anticristo” nunca aparece no apocalipse.
2.1 – O Anticristo Futuro?
            Outra questão é que em muitos sistemas particulares o “anticristo” é tomado como um indivíduo particular e com isso associam o número 666 como sendo uma referência a alguém que surgirá no futuro.
O TERMO “ANTICRISTO” NO NOVO TESTAMENTO
1 João 2.18-19,22-23,26
A apostasia = anticristo
1 João 4.1-4
Falsos mestres e falsos profetas
2 João 7-11
A negação da doutrina da encarnação

2.2 – A Conclusão do Novo Testamento sobre O Anticristo:
a.       os cristãos já haviam sido advertidos sobre a vinda do Anticristo (1 João 2.18; 4.3)
b.      Não há apenas um “anticristo”, mas vários (1 João 2.18)
c.       O “anticristo” já agia nos tempos de João (1 João 2.18; 1 João 2.26; 1 João 4.3; 2 João 1:7)
d.      O anticristo era um sistema de crenças que negava a encarnação: Ainda que os anticristos aparentemente afirmassem pertencer ao Pai, ensinavam que Jesus não era o Cristo (1João 2.22); estando de acordo com os falsos profetas (1 João 4.1), negavam a Encarnação (1 João 4.3; 2 João 7,9); e rejeitavam a doutrina apostólica (1 João 4.6).
e.       Os Anticristos foram membros da igreja: 1 João 2.19; eles tentavam enganar o restante dos cristãos 1 João 2.26; 4.1; 2 João 7,10.
O cumprimento de Mateus 24 é claro pelo ensino do Novo Testamento sobre o anticristo conforme Jesus mesmo disse em Mateus 24:10-11.


quarta-feira, 15 de junho de 2016

ESCATOLOGIA INDIVIDUAL

II – ESCATOLOGIA INDIVIDUAL – UMA PERSPCTIVA CRISTÃ DA MORTE
Rev. João Ricardo Ferreira de França*

            Neste módulo vamos estudar o tema relacionado a visão cristã sobre a morte e tudo que se aplica a ele de acordo com o ensino das Escrituras Sagradas.
2. – A Morte Física:
            O que é a morte? O que ocorre depois dela? Estas são questões pertinentes ao futuro. A morte é um tema que quase todos nós ignoramos ou não gostamos de tratar, mas devemos lembrar que há cada vinte segundo morre uma pessoa. Ou seja, três mortes a cada minuto.[1]
            Qual é o caráter básico da morte? Devemos reconhecer que a morte não é algo natural em nossa vida, mas é resultado da queda do homem no pecado conforme lemos em Gênesis 2.17; Hebreus 9.27. E sabemos que a morte é si é emblema de que Adão fracassou em simplesmente obedecer a Deus (Gênesis 3.9).
2.1 – A Natureza da Morte:
Qual é a natureza da morte? Podemos oferecer várias respostas bíblicas para esta questão. A morte é a dissolução da unidade entre o espírito e o corpo (Eclesiastes 12.17). No original grego, a palavra traduzida por morte é “qana,toj” (thanátos) que literalmente significa separação. A morte resulta na cessação de qualquer atividade na terra. Também deve-se ter em mente que a morte é a passagem para a eternidade (Lucas 16.19-31). O termo também pode designar o estado espiritual do pecador: Ou seja, longe de Cristo o homem está separado de Deus.
2.2  – O Conceito / Ensino de Cristo sobre a Morte:
Em muitas ocasiões o Senhor Jesus fez referência à morte como se fosse um sono (Mateus 9.24; Marcos 5.39; Lucas 8.52; João 11.11). A questão que levanta-se é a seguinte: Estaria Jesus afirmando haver um sono da alma? Na verdade é uma metáfora para descrever o estado transitório de cessação das atividades realizadas pelo corpo. Jesus também apresentou o conceito da incredulidade como sendo um estado de morte (João 5.21-25).
2.3  – O Ensino Paulino da Morte.
No pensamento de Paulo encontramos conceitos similares ao de Jesus sobre o sono da Alma ( 1ª Tessalonicenses 4.13) usado como sendo uma metáfora, pois, faz referência à ressurreição dos mortos. Ele também, em seu pensamento, apresenta a morte como sendo resultado do pecado (Romanos 5.12; 6.23); O apóstolo também ensina que, dentro do propósito de Yahweh, Jesus destruiu a morte (2ª Timóteo 1.10), mas tal realidade será de fato consumada na ressurreição do último dia (1ª Coríntios 15.26,54); no pensamento paulino a morte não é uma derrota para o cristão, mas trata-se de uma vitória gloriosa (2ª Timóteo 4.6-8), ainda que seja um momento difícil é o Espírito Santo que nos oferece força para esta hora.
3        A Imortalidade da Alma.
Um dos temas que a Escatologia Individual se ocupa com grande preeminência é a doutrina da imortalidade da alma, visto que este ensino tem sido negado por muitas comunidades ditas cristãs se colocam contra este ensino (p.e. Adventistas, Testemunhas de Jeová).
3.1 – A Doutrina da Imortalidade da Alma no Antigo Testamento
Devemos ressaltar que “O conceito de imortalidade da alma foim desenvolvido nas religiões de mistério da antiga Grécia, e recebeu expressão filosófica nos escritos de Platão (427-347 a C.)”[2] Entretanto, encontramos também este conceito na primeira parte das Escrituras.
A ideia de imortalidade da alma está presente no Antigo Testamento. No Hebraico encontramos a palavra “queber” que significa sepultura, e a palavra “sheol” que indica a existência ou estado da alma após a morte. Tanto os justos e os ímpios vão para o seol depois que morrem; mas alguns textos apontam para condições diferente tanto para os justos, incluindo a esperança da ressurreição (Deuteronômio 32.22; Salmos 116.3; Provérbios 9.18; Jó 19.26-17; Salmos 49.15; Daniel 12.2)
3.2  – A Imortalidade da Alma no Novo Testamento.
O Novo Testamento a doutrina é claramente desenvolvida a ideia de imortalidade da alma.
a)      Jesus a firma a doutrina (Mateus 10.28;Lucas 16.19-31; Lucas 23.42-43)
b)      Moisés e Eles presentes na transfiguração revelam a imortalidade da alma (Marcos 9.1-4)
c)      Paulo também ensinou a imortalidade da alma (2ª Timóteo 4.1; Filipenses 1.21-23)
d)     João apóstolo tem uma visão dos fiéis no céu (Apocalipse 6.9-12)
IV – O ESTADO INTERMEDIÁRIO
            Nosso estudo neste momento se ocupa do estado intermediário que a disciplina escatológica trata. Que se refere ao “o estado do morto entre a morte e a ressurreição”[3] Chamamos  de  estado  intermediário  da  alma  o  período  ou  situação  da  alma  entre  o momento da morte e a parousia, quando haverá a ressurreição, o juízo final, a derrota final de Satanás e a nova criação. 
            Como se dá o estado intermediário? O que ocorre lá? Há uma existência continuada ou não? Se há de que forma a alma existe no estado intermediário? Se não há como tratar os textos que parecem indicar uma existência continuada pós-morte?
4.1 – É um estado consciente:
            A Palavra nos ensina que no mundo dos mortos o estado é de plena consciência. Isso significa que a consciência de uma pessoa que morre não é apagada no seu pós-morte; no mundo dos mortos (Estado intermediário) ela fica consciente, tanto no céu como inferno.
a)      O caso do Rico e Lázaro (Lucas 16.19-31).
b)      Os Mártires na igreja primitiva (Apocalipse 6.9-12).
4.2 – É um estado fixo:
            É um estado que não pode ser mudado. Não há como mudar de estado no pós-morte. Isso é claro pelas Escrituras sagradas:
a)      A condenação é certa no pós-morte quando não arrependeu em tempo (João 3.18)
b)      Não há como mudar de endereço no estado intermediário (Lucas 16.26).
4.3 – O Destino dos homens no Estado Intermediário:
            Onde de fato ficam os homens (justos e ímpios) quando morrem? O que acontece com as suas almas? Qual é a sua localização?
4.3.1 – Os Justos:
            Para onde vai o justo depois da morte? Onde eles estão no mundo dos mortos?
a)      Estão com Deus (Filipenses 1:23, Lucas 23:42, Atos 7:59, II Coríntios 5:1-8).
b)    Estão no paraíso (céu, seio de Abraão) - (I Contios 23:42, II Contios 12:4, Apocalipse 2:7).
c)    Estão em descanso (sentido de cessaram as lutas desta vida) - (Apocalipse 14:13,m 6:9-12)
4.3.2 – Os Ímpios:
a) Estão separados de Deus (Lucas 16:19-31, Mateus 25:31-46, Romanos 3:23)
b) estão sofrendo o castigo (Lucas 23:42, II Pedro 2:9, Romanos 6:23)
c) estão no Hades. O que é Hades? A palavra grega a[dej literalmente significa “não ver”. Refere-se ao mundo não visto, ao além. O Novo Testamento emprega esta palavra onze vezes, com o sentido de:
1)   Referência geral ao sepulcro (Atos 2:27-31, I Coríntios 15:55, Apocalipse 1:18, 6:8)
2)   Como referência ao lugar dos injustos mortos (Lucas 16:23, Apocalipse 20:14)
3)   Como referência ao sentido implícito de inferno (Mateus 11:23, Lucas 10:15, Mateus 16:18, Apocalipse 20:14).
Assim, concluímos que, tratando-se do estado intermediário dos ímpios, o termo “hades” adquire o significado de inferno.
4.4 – É um estado Incompleto:
            A Bíblia apresenta o Estado Intermediário como sendo incompleto conforme vemos nas seguintes passagens: As almas aguardam pela ressurreição – I Coríntios 15, Apocalipse 20:11-13.
5. Falsos Ensinos a respeito do estado da alma no pós-morte:
a) O Sono da Alma: Os textos usados para defender esta ideia (Mateus 9:24, Marcos 5:39, Lucas 8:52, João 11:11) conforme já vimos trata-se de uma metáfora para descrever a morte, é um eufemismo bíblico para o conceito da morte física. E já vimos que a alma não fica dormindo no estado intermediário conforme aprendemos pelos textos de Lucas 16.19-31). Os Mártires na igreja primitiva (Apocalipse 6.9-12).
b) A doutrina do Purgatório: É uma doutrina do romanismo que ensina tratar-se de um local ou estado da alma que não é o Céu nem o Inferno, em que a alma fica sofrendo. Não pode adquirir mérito para sair dali para o Céu, mas as missas e orações em favor do morto podem fazer isto.
1.      Os textos usados para fundamentar essa famigerada doutrina são II  Macabeus  12:43  -  Texto  apócrifo,  rejeitado  pelos  próprios  judeus.  Fere todo o ensinamento bíblico de outros textos, como Ezequiel 18:4, 20, 21, Hebreus 9:27, etc.
2.      Lucas 16 – Lázaro no seio de Abraão estaria no purgatório. O texto diz que Lázaro estava sendo consolado.
3.      Mateus 5:25-26 – Uma parábola em que o devedor é lançado na prisão até pagar tudo que deve. Não pode ser o purgatório, pois segundo o próprio dogma católico, lá ninguém pode pagar pelos próprios pecados.
4.      I Pedro 3:18-20 – Os espíritos em prisão aos quais Cristo pregou seriam os do purgatório. Na verdade, Cristo pregou nos dias de Noé aos espíritos aprisionados pelo pecado, através do próprio Noé.








* O autor é Ministro da Palavra e dos Sacramentos na Igreja Presbiteriana do Brasil. Atualmente é pastor na Igreja Presbiteriana de Riachão do Jacuípe – BA. Formou-se em Teologia Reformada no Seminário Presbiteriano do Norte (SPN) no Recife – PE. Foi professor de línguas bíblicas (Hebraico e Grego) no Seminário Presbiteriano Fundamentalista do Brasil em Recife – PE. É casado e tem dois filhos.
[1] HENDRIKSEN, William. A Bíblia Futura segundo a Bíblia. Tradução: Marcus Ferreira. São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 27
[2] HOEKEMA, Anthony A. A Bíblia e o Futuro. Tradução: Karl H. Kepler. São Paulo: Casa Ed. Presbiteriana, 1989, p. 97.
[3] HOEKEMA, Anthony A. A Bíblia e o Futuro. Tradução: Karl H. Kepler. São Paulo: Casa Ed. Presbiteriana, 1989, p. 105

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Uma Breve Palavra sobre Confessionalidade

UMA BREVE PALAVRA SOBRE CONFESSIONALIDADE

Rev. João Ricardo Ferreira de França*

A Confissão de Westminster (CFW) é uma exposição fiel das Escrituras conforme declara a Constituição da Igreja Presbiteriana do Brasil (CI/IPB) Capítulo 1. Art. 1º que diz: “A Igreja Presbiteriana do Brasil é uma federação de igrejas locais, que adota como única regra de fé e prática as Escrituras Sagradas do Velho e Novo Testamento e como sistema expositivo de  doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve; rege-se pela presente Constituição; é pessoa jurídica, de acordo com as leis do Brasil, sempre representada civilmente pela sua Comissão Executiva e exerce o seu governo por meio de concílios e Indivíduos, regularmente instalados.”.
Será que a CFW é a melhor das Confissões porque é presbiteriana? Minha resposta é a seguinte: porque ela é bíblica e não porque é a melhor, embora considere a rainha de todas as confissões por sua precisão teológica, sua clareza nos tópicos teológicos e, por fim, por ser fruto de uma reflexão madura dos teólogos do século XVII.
A colocação do artigo indefinido aqui não significa que não considere a CFW e seus catecismos uma dentre tantas entenda-se aqui como uma alusão a sua biblicidade; assim como as demais confissões anteriores a ela, mais uma vez que ela é o amadurecimento da teologia reformada faz-se necessário dizer que a CFW é "a" exposição fiel!- exposição aqui não se iguala a pregação, mas a apresentação sistêmica das doutrinas apresentada nas Escrituras Sagradas.
Quanto a este aspecto deve-se ressaltar que: aqueles que confessam Teologia Reformada encontrarão na CFW - uma corrente hermenêutica com a qual todos devem estar atrelados ao que a própria CFW estabelece como regras seguras de uma interpretação das Escrituras logo em seu capítulo de abertura, e aplica tais regras nos capítulos subsequentes em sua totalidade confessional. Logo, alguém que subscreve proposicionalmente os símbolos de fé está obrigado a submeter-se a estas regras hermenêuticas reformadas!















* O autor é Ministro da Palavra pela Igreja Presbiteriana do Brasil. Sendo Ministro da Igreja Presbiteriana  de Riachão do Jacuípe – BA.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

A EFICÁCIA DO BATISMO.

A EFICÁCIA DO BATISMO.
Rev. João Ricardo Ferreira de França.
            Compete-nos tratar também deste tema que se relaciona com o Batismo Cristão que é o assunto da eficácia deste sacramento. Isto é importante porque na tradição romanista o sacramento do Batismo possui conotações regeneradoras, ou seja, para o catolicismo romano o batismo opera a salvação.
            Outra preocupação que nos faz ocupar deste assunto é fato de que na tradição evangélica-protestante há uma tendência ao rebatismo como padrão doutrinário ou mesmo como uma distinção entre os que seguem a doutrina ortodoxa e os que são heterodoxos ou até mesmo os que são tidos como heréticos.
1 – A Eficácia dos Sacramentos e a Confissão de Fé de Westminster:
            Qual é a validade dos sacramentos na vida cristã? Qualquer pessoa que ministrar os sacramentos deve ser aceito como válido? Geralmente a resposta que nós oferecemos a estas duas questões é que a validade do batismo e a sua eficácia depende de quem realizou o sacramento; entretanto a Confissão de Fé de Westmister apresenta uma resposta interessante:
III. A graça significada nos sacramentos ou por meio deles, quando devidamente usados, não é conferida por qualquer, poder neles existentes; nem a eficácia deles depende da piedade ou intenção de quem os administra, mas da obra do Espírito e da palavra da instituição, a qual, juntamente com o preceito que autoriza o uso deles, contém uma promessa de benefício aos que dignamente o recebem.[1]
            A declaração da Confissão de fé neste particular assegura que a validade dos sacramentos não é dependente da piedade (santidade) ou da intenção (pressuposto teológico) daquele que o administra. Isto se aplica aos dois sacramentos ordenados e estabelecidos pelo Senhor.
2 – A Validade e Eficácia do Batismo:
            A doutrina da comunhão dos santos é expressa no credo apostólico “Creio na Comunhão dos Santos” – geralmente se entende aqui uma comunhão mística e também a santa ceia como sendo a forma visível desta comunhão, pois, ela expressa a unidade da Igreja.
            Mas, quando estudamos a Carta de Paulo aos Efésios encontramos Paulo dizendo: “Há uma só fé, um só batismo” (Efésios 4.8). Será que a doutrina do sacramento do Batismo expressa exatamente a unidade? A unidade da fé expressa pelo Batismo tem deixado de ser analisado; e tem-se colocado para a Igreja uma postura de sermos negligente a este particular.
            Quando lemos esta expressão Paulina nos vem a mente a prática do rebatismo dentro da tradição evangélica-protestante. Está correto a prática do rebatismo? Quando presbiterianos, congregacionais, luteranos, anglicanos e reformados são recebidos em outras comunidades evangélicas são automaticamente constrangidos a rebatizar-se. Será que isso é válido?
            A Confissão de fé de Westminster quando toca nesta temática nos traz a lume uma resposta importante: “VII. O sacramento do batismo deve ser administrado uma só vez a uma mesma pessoa[2]
            A Confissão de Fé assegura-nos que o sacramento do Batismo deve ser administrado uma só vez sobre a mesma pessoa. Esta posição adotada é uma forma de combater os anabatistas que não aceitavam o pedobatismo[3]; bem como aqueles que julgavam o modo de batizar por aspersão errado e procuravam rebatizar por imersão. A Confissão de fé usa o texto de Tito 3.5 como fundamento para a sua posição.
            Mas, a grande questão é: Quanto aos que são oriundos do Catolicismo Romano, eles devem ser rebatizados? O tema em si mesmo é melindroso, polêmico e incômodo, pois, o presbiterianismo brasileiro é um dos poucos no mundo a rebatizar católicos quando estes se convertem ao protestantismo.
3 – Os Reformadores e a Validade do Batismo na tradição cristã:
            Devemos considerar a posição dos principais reformadores quanto a questão da validade do Batismo, como eles de fato encaravam o sacramento para entendermos a problemática a respeito deste polêmico assunto.
            Qual era a concepção dos primeiros reformadores a respeito da validade eficácia do Batismo como sacramento estabelecido por Cristo Jesus na Igreja? A sabedoria da igreja (ou ignorância como alguns poderão alegar) deve ser sempre ouvida quanto a este assunto, a catolicidade da Igreja reclama ser ouvida neste particular, inclusive na tradição Reformada.
3.1 – Martinho Lutero:
            Há muitos que asseguram que a validade do batismo está vinculado a quem administra: por exemplo, se for o batismo efetivado pelo pastor (evangélico ou protestante) este batismo deve ser aceito como válido, mas se for realizado por um sacerdote católico romano deve ser rejeitado.
Curioso é que este pensamento nunca esteve presente na mente dos primeiros reformadores, incluindo Matinho Lutero que afirma que o ser humano batiza e não batiza, então ele explica: “batiza, porque efetua a obra ao submergir o batizando. Não batiza, já que nesta obra não age por sua própria autoridade, mas representa Deus[...]” e ainda informa que “o batismo que recebemos por mãos de um ser humano, não é do ser humano, mas de Cristo e de Deus”.[4]
            A validade e eficácia do sacramento batismal não se vincula a intenção ou a pessoa quem o administra. Uma vez que este sacramento é outorgado por Deus à igreja por meio de um mandato divino, e o que o torna válido é invocação do Deus trino para isso, então, não demérito no sacramente por causa de quem o administra.
3.2 – Ulrich Zwínglio:
            Um dos reformadores pouco conhecido no Brasil chama-se Zwínglio ou Zuínglio foi reformador na cidade de Zurique na Suiça, ele sustentara que o batismo e a santa ceia não eram meios de graça, para ele estes sacramentos nada carregavam de redentivo.[5]. Para este reformador o sacramento do Batismo era símbolo da unidade, por isso, admite um só batismo.[6]   
3.3 – João Calvino:
            O reformador francês que residiu em Genebra e naquela cidade desenvolveu o ministério da Palavra. Elaborou uma teologia dos sacramentos que se faz presente em todas as confissões de fé reformadas incluindo os Padrões de Westminster (padrões doutrinários na Igreja Presbiteriana).
            Calvino segue a definição agostiniana para os sacramentos “uma forma visível de uma graça invisível”[7]O reformador de Genebra chama o sacramento do Batismo de uma “marca de nosso cristianismo” e do “sinal no qual somos recebidos na Igreja, para que enxertados em Cristo sejamos contados entre os filhos de Deus”.[8]
            Quanto ao tema da validade e eficácia do Batismo Calvino revela que tanto um quanto o outro não depende de quem celebra o sacramento, porque devemos receber o batismo como “se o recebêssemos das mãos do próprio Deus[...] pode-se deduzir daqui de que nem se tira, nem se acrescenta nada ao Sacramento a causa da dignidade de quem o administra [...] quando se envia uma carta não se importe quem seja o portador”.[9]
A tradição cristã Reformada nos deixa o legado de que o batismo tem a sua validade eficácia não por causa da intenção de quem administra. Isto também é assegurado na Confissão de Fé de Westminster quando trata dos sacramentos: “[...]; nem a eficácia deles depende da piedade ou intenção de quem os administra, mas da obra do Espírito e da palavra da instituição, a qual, juntamente com o preceito que autoriza o uso deles, contém uma promessa de benefício aos que dignamente o recebem. Ref. Rom. 2:28-29; I Ped. 3:21; Mat. 3:11; I Cor. 12:13; Luc. 22:19-20; I Cor. 11:26.”
O que nós aprendemos aqui sobre a validade e a eficácia do sacramento do Batismo? Que para “a validade do sacramento é essencial que seja ministrado ‘em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo’”.[10] Ou seja, quando lemos Mateus 28.19 temos alí o designativo de Deus que dá sentido e validade ao Batismo.
3.4 – O Anabatismo e sua Influência na Tradição Presbiteriana Brasileira.
            Já vimos que a Reforma Protestante rejeita de forma peremptória a ideia do rebatismo seja de protestantes ou católicos. Entretanto, como essa prática de rebatizar chegou nas igrejas evangélicas e protestantes?
            Existiu um movimento paralelo à Reforma chamado de Reforma Radical que é conhecido como Anabatismo. Conhecidos na história como Rebatizadores. Eles advogavam que o Batismo Infantil praticado pela Igreja Católica Romana era nulo em seu sentido, e por isso, passaram a rebatizar os que haviam sido batizados na infância, entretanto, as Igrejas oriundas da Reforma praticavam o pedobatismo, e logo, também foram alvos de críticas dos anabatistas que também passaram a rebatizar os protestantes que eram aspersionistas e pedobatistas.
            Tanto os Luteranos quanto os Calvinistas se opuseram ao movimento da Reforma Radical que questionavam a validade não apenas do modo de batismo (aspersão), os sujeitos (no caso os bebês) e a validade do batismo católico romano. No decorrer dos anos as igrejas evangélicas e protestantes, estas últimas, nunca rebatizadoras, agora se veem na obrigação de rebatizar católicos convertidos à tradição protestante ou evangélica.
            De modo particular o presbiterianismo brasileiro possui conotações anabatistas. No ano de 1888 o sínodo da IPB se reuniu sob a presidência do Rev. Blackford onde oficialmente a igreja presbiteriana do Brasil adotara os padrões de Westmisnter e nomeou uma comissão para tratar da validade ou nulidade do batismo católico romano. E essa comissão ao que tudo indica era favorável a validade do batismo romano. Isto ficar evidente na ata daquele concílio. Entretanto, o sínodo não aceitou o relatório da comissão. Havendo uma contestação por meio de um protesto da própria comissão que ficou lavrada na ata do sínodo, que declara:
Nós, abaixo assinados, protestamos contra a decisão do Sínodo, declarando inválido o batismo romano, visto o acharmos inconveniente: (1) Porque grande maioria dos teólogos da Igreja Protestante, incluindo Lutero, Calvino, Cumingham, os Hodges (Charles e Alexander) pai e filho, Patton, Schaff, Briggs e outros homens ilustres o têm como válido; (2) Porque é fato histórico que um só ramo da Igreja Presbiteriana do Sul dos Estados Unidos da América se declara contra a validade desse batismo e o Sínodo por este ato se opõe à posição das Igrejas chamadas Reformadas; (3) Porque as igrejas metodistas e Episcopal reconhecem ambas esse Batismo, e deve toda harmonia possível em questões dessa ordem; (4) Porque nessa questão deve haver a maior caridade possível.[11]
A prática de rebatizar pessoas que vieram do Catolicismo Romano prevaleceu na identidade protestante presbiteriana brasileira. A alma católica dos evangélicos brasileiro desconhece o fato de “que os evangélicos no Brasil estão entre os mais anti-católicos do mundo. Só para ilustrar (e sem entrar no mérito dessa polêmica) o Brasil é um dos poucos países onde convertidos do catolicismo são rebatizados nas igrejas evangélicas. ”[12]
No século XX esta prática “anabatista” na Igreja Presbiteriana do Brasil voltou a ser questionada pelo Rev. Salomão Ferraz no ano de 1915 publica seu livro Princípios e Métodos. Ferraz declara: “A inovação, a esquisitice, não é o fato de aceitar-se a validez do batismo da igreja romana, mas é exatamente o oposto. A praxe do rebatismo é que vem de encontro ao consenso da igreja universal, não só na atualidade, como desde as eras mais remotas, como teremos ocasião de demonstrar”[13]
Neste mesmo livro Ferraz falando da nutrição espiritual que bons livros de tradição católica nos oferecem como a imitação de Cristo. Assegura-nos que tanto protestantes como católicos são beneficiados pelas linhas deste livro. E que é uma loucura relegar a Igreja Romana como não cristã:
E era esse mesmo livro [a Imitação de Cristo] o predileto dos Whitefields e dos Wesleys, como ainda o é de milhares de cristãos evangélicos em nossos dias. E entretanto, só nós os protestantes é que possuímos toda a verdade, toda a santidade, toda a piedade, toda a doçura, toda a pureza e abnegação, toda a consagração e caridade; só nós é que temos direito ao nome de cristãos, e os católicos romanos, mesmo os mais piedosos e sinceros, esses, coitados! De cristãos só tem o nome, o rótulo, e mais nada! É o cúmulo da paixão partidária, é o extremo da cegueira de um sectarismo estreito e pernicioso![14]
Salomão Ferraz sumariza as razões pelas quais deve-se ir contra o rebatismo de católicos convertidos na fé cristã protestante:
Resumindo as nossas considerações, nós tiramos a conclusão de que a prática de rebatizar os romanistas, que se unem às igrejas evangélicas, é inteiramente descabida e insustentável, e isto pelos seguintes modos: a) É anti-católica e atentatória contra a catolicidade da igreja de Jesus Cristo, como é reconhecida em nossas doutrinas evangélicas. b) Vem de encontro à letra e ao espírito das Escrituras e dos nossos símbolos presbiterianos e ao uso de toda a igreja. Diz o Dr. Charles Hodge: ‘Nós não temos autoridade escriturística nem exemplo para a repetição do rito do batismo; e tal repetição é proibida pela nossa Confissão de Fé e contrária ao uso de toda a igreja cristã.’ (Church Polity 214)[15].
                No entendimento protestante a validade do batismo romano não se deve por causa da intenção e nem por causa de quem o administra; quando se nega a validade deste sacramento está se traindo toda a tradição da igreja cristã durante muitos séculos. Os teólogos reformados do século XVII afirmaram peremptoriamente que há validade sim no rito do batismo praticado no romanismo, Francis Turrentin declara:
A verdade acerca da doutrina do batismo pode ser considerada seja em sua essência, ou a seus efeitos, ou os ritos e as cerimônias usadas nele. No sentido anterior, reconhecemos que pela providência singular de Deus a doutrina verdadeira acerca do batismo permanece na Igreja de Roma porque nela se retém a essência do verdadeiro batismo, a saber, a água e a fórmula prescrita por Cristo, segundo a qual é administrado em nome da Trindade. Por essa razão, o batismo realizado nesta igreja é considerado válido e não pode ser repetido.[16]
                Então, quando analisamos a questão do rebatismo na tradição presbiteriana brasileira percebemos que a igreja no Brasil ignora completamente a catolicidade da igreja (o que a igreja sempre praticou ao longo dos séculos) e a sua própria tradição Reformada.
            Na igreja da américa o presbiterianismo norte-armericano no ano de 1835 na Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana havia declarado que a Igreja Católica Romana não “era uma igreja cristã”, e disso decorre o fato da nulidade de seu batismo. Grandes eruditos apoiaram essa decisão, entre os quais encontramos: Nec Grill e o eminente professor James H. Thornwell e os contrários a posição da Assembleia Geral encontramos Dr. Lorde e o sr. Atken. A Igreja Presbiteriana da América naquela ocasião, pela grande maioria declarou “nulo o batismo realizado pela Igreja Católica Romana. ”[17]
            Entretanto, em 1845 o eminente teólogo de Princeton o dr. Charles Hodge levanta objeções significativas a decisão da Igreja Presbiteriana quanto a este particular, e as palavras dele poderá ser muito bem dirigida à Igreja Presbiteriana em nossa nação:
Estariam os homens dispostos a perguntar que nova luz foi descoberta? Que austera necessidade induziu a Assembleia a declarar que viveram e morreram não batizados Calvino, Lutero e todos daquela geração, bem como milhares que tendo somente o batismo romano foram recebidos nas igrejas protestantes?[18]
            Trinta anos depois, essa resolução foi abolida. Entretanto, a resolução deixou a encargo dos conselhos locais a decisão de receber ou não por rebatismo os oriundos da Igreja Católica Romana, alguém declarou que tal resolução foi uma declaração de incapacidade teológica significativa.[19] No Brasil não se pode acusar a igreja aqui deste tipo de postura, mas pode-se dizer que nem tal incapacidade é cogitada, pelo contrário a postura anabatista é preferível porque parece ser mais cômodo.




[1] Confissão de Fé Capítulo XVII seção IIII.
[2] Confissão de Fé Capítulo XVIII seção 7
[3] Pedobatismo = ao batismo dos filhos dos crentes recém-nascidos.
[4] LUTERO, Matinho.  Do Cativeiro Babilônico da Igreja In: Obras Selecionadas, Volume II, p. 379.
[5] TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão, 1998, p.237.
[6] Apud, KLEIN, Carlos Jeremias. Batismo e Rebatismo  nas mais Diversas Tradições Cristãs. São Paulo: fonte Editorial, 2010, p.43-44.
[7] CALVINO, Juan. Institución de la Religón Cristiana. Barcelona: Felire, 1999, p. 1007-1008
[8] Ibid, p. 1028.
[9] Ibid, p. 1037.                                   
[10] HODGE, A.A. Esboços de Teológia. Tradução: F.J.C.S - Lisboa. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas (PES), 2001, p.846
[11] Apud, KLEIN, Carlos Jeremias. Batismo e Rebatismo  nas mais Diversas Tradições Cristãs. São Paulo: fonte Editorial, 2010, p.94
[12] LOPES, Augustus Nicodemos. A Alma Católica dos Evangélicos no Brasil. In: http://tempora-mores.blogspot.com.br/2006/11/alma-catlica-dos-evanglicos-no-brasil.html acessado em: 03/05/2016.
[13] FERRAZ, Salomão. Princípios e Métodos. http://icai-ts.org.br/ 1915,p.29
[14] Ibid, p. 18.
[15] Ibid, p.34.
[16] TURRETIN, Francis.  Los institutos de la Teologia Refutativa, Volume 3, 1685, p.405. – Ênfase nossa.
[17] KLEIN, Carlos Jeremias. Batismo e Rebatismo nas mais Diversas Tradições Cristãs. São Paulo: fonte Editorial, 2010, p.88.
[18] Apud, KLEIN, Carlos Jeremias. Batismo e Rebatismo nas mais Diversas Tradições Cristãs. São Paulo: fonte Editorial, 2010, p.89.
[19] LEORNAD, Émile-G. O Protestantismo Brasileiro. São Paulo: ASTE, 1981, p.107-108.