IGREJA PRESBITERIANA DE RIACHÃO DO JACUÍPE – BA
O PROBLEMA DO ANTIGO TESTAMENTO
Rev. João Ricardo Ferreira de França.
Introdução:
Agora nos cabe considerar a razão
porque o Antigo Testamento é um problema para a igreja de hoje. Kaiser lembra-nos
que em vez da igreja agradecer pela grande benção do Antigo Testamento, vive questionando
sobre sua utilidade e rejeitando-o.
Qual é a problema do Antigo Testamento? Alguém já declarou: “
O problema do Antigo Testamento, portanto, é não
apenas um entre muitos. É o problema principal da teologia.”
Ele assevera que o Antigo Testamento é o fundamental problema para seu estudo.
I - A QUESTÃO DO MITTE
NO ANTIGO TESTAMENTO.
Diante de vários problemas no
estudo do Antigo Testamento há, entretanto, um que é fundamental – é a questão
do mitte. Será que existe um tema que
integre toda a revelação veterotestamentária? Há diversas propostas. O problema
pode ser colocado da seguinte forma: “existe na fé veterotestamentária um
núcleo central, do qual tudo parte e em torno ao qual tudo se move?”
Qual é a grande ideia que governa o
Antigo Testamento? Esta pergunta é feita por cada estudioso que se aproxima do
Antigo Testamento. Assim, ele precisa buscar o telos (propósito, tema) do Antigo Testamento para entender toda a
revelação de Deus.
Para Von Rad o “objeto da teologia
veterotestamentária é o conjunto dos testemunhos da ação de Deus na história –
tanto de acontecimentos que precederam cronologicamente os testemunhos, como no
Hexateuco, como acontecimentos posteriores, como no caso dos profetas."
O problema da abordagem de Von Rad
é que ele faz a distinção entre a fé e os eventos históricos; assim, torna-se
vazio o conceito de um centro unificador na Teologia Bíblica conforme proposta
por ele; Kaiser nos alerta para o seguinte:
Depois de um quarto de século, porém, Gerhard von
Rad veio completar quase um círculo completo e adotou a própria posição que
merecera originalmente a repressão de Eichrodt. Ao separar a intenção
‘querigmática’, ou propósitos homiléticos, dos vários escritores do A.T dos
fatos da história de Israel, Von Rad não somente negou qualquer fundamento genuíno para a confissão da fé que
Israel tinha em Javé, como também mudou o objeto do estudo teológico de uma
focalização sobre a Palavra de Deus e Sua obra, para os conceitos religiosos do
povo de Deus. Para von Rad não havia a necessidade de fundamentar o querigma da crença em qualquer realidade
objetiva, ou qualquer história como evento. A Bíblia não é tanto a fonte da fé
dos homens do A.T como uma expressão da sua fé [...] conforme a opinião dele,
cada época histórica tinha uma teologia
sem igual a ela, com tensões internas, diversidade e contradições à teologia
das demais épocas do A.T. De fato, não havia, para ele, nenhuma síntese na
mente dos autores bíblicos ou nos textos, mas apenas a possibilidade de uma
‘tendência para a unificação’. O historicismo voltara! O A.T não possuía qualquer eixo central ou continuidade de um plano
divino; pelo contrário, continua uma narrativa de como o povo lia
religiosamente a sua própria história, sua tentativa de tornar reais e
apresentar eventos e narrativas mais antigos.
A resposta de
Kaiser a Von Rad é verdadeira e legítima, pois, se abordarmos o texto dentro
desta perspectiva não poderemos ter um centro unificador. E não existe uma
Teologia Bíblica, mas várias formas confessionais, a fé não tem elementos históricos
dentro deste esquema.
II - PROPOSTAS PARA UM CENTRO UNIFICADOR.
Muitos
estudiosos podem até julgar desnecessária tal abordagem, todavia, Hasel nos diz
que “a questão da existência do que pode ser considerado o centro (do alemão
Mitte) do Antigo Testamento é de suma
importância para o estudo da teologia do Antigo Testamento e para a compreensão
deste”
No
entendimento de Hasel só se pode ter uma compreensão adequada do Antigo
Testamento na tentativa de buscar nele um centro unificador. Neste momento
avaliaremos algumas propostas com relação à grande ideia que o Antigo
Testamento apresenta para cada um de nós.
a) A
Santidade de Deus.
A primeira
proposta que percebemos é a da Santidade de Deus; esta proposta é adotada por
homens como E.Sellin. O argumento dele em favor deste
Mitte é o fato de que “isto caracteriza a natureza mais profunda e
íntima do Deus do Antigo Testamento”
.
Sallin
argumenta “que seu estudo se preocupa ‘apenas com a longa e única linha que
termina no Evangelho: a palavra do Deus eterno nos escritos do Antigo
Testamento”
.
O
exegeta do Antigo Testamento pode expor o texto Bíblico tendo a noção
fundamental que o tema central que norteia a mensagem veterotestamentária é a
Santidade de Deus.
Qual
é o problema com esta proposta da Santidade? É que alguns livros do Antigo
Testamento parece não ser dominado, em sua mensagem, por este tema: Os
Históricos e os Sapienciais são exemplos claros disto. No livro de juízes a
santidade de Deus parece não ser o tema que integra a sua mensagem, e muitos
textos de provérbios e salmos não indicam esta perspectiva.
b) O Senhorio de Deus.
Esta proposta
é interessante porque apresenta a realidade de que Deus é Senhor. Este Mitte é defendido como tema central do
Antigo Testamento por Ludwing Köhler Para ele a afirmação “Deus é Senhor” é “a
espinha dorsal da Teologia do Antigo Testamento” (KÖHLER, 1957, p. 35).
O
exegeta bíblico pode se valer deste conceito e trabalhar a sua exposição tendo
este tema como sendo o que de fato unifica o Antigo Testamento. Mas, qual é o
problema desta abordagem? É que os livros de juízes e sapienciais não nos
apresenta este conceito de forma clara, se um tema não integra todos os livros
do Antigo Testamento ele não pode ser eleito como Mitte para a mensagem central do Antigo Testamento.
c) O Governo e a Comunhão com
Deus.
Esta proposta
é de George Föhrer que tenta apresentar isso de forma muito interessante; pois,
ele diz que apesar de se tentar por diversas vias a elaboração de um Mitte ele diz que “deveria ser possível
falar de um núcleo central da fé e da teologia veterotestamentária.” Ele
percebe a dificuldade de se escolher um único tema que integre toda a mensagem
do Antigo Testamento e diz que
essa possibilidade poderia ser oferecida por dois
tipos de conceitos: soberania de Deus e comunhão entre Deus e o homem [...] da
soberania e da comunhão com Deus, constituem o elemento unificador da multiplicidade,
vinculando-se entre si como os dois pontos focais de uma elipse.
Mas
esta abordagem também merece crítica, por isso, um pregador que deseja expor
todo o Antigo Testamento não deveria se aferrar a esta temática; pois, esta
linha de argumentação deixa de fora dois livros fundamentais: Ester e Cantares
de Salomão. Ora, então, tal abordagem da mensagem central não é legítima.
d) A Promessa.
Este Mitte tem sido habilmente defendido por
Walter C. Kaiser Jr., pois, ele sugere que o tema que integra toda a mensagem
do Antigo Testamento tem sido a promessa. Tudo é promessa vinculada ao
cumprimento. Para ele o Antigo Testamento é a promessa, e o Novo Testamento é o
cumprimento.
Ele
diz que o “verdadeiro problema, declarado com singeleza, é o seguinte: Existe
uma chave para um arranjo metódico e progressivo dos assuntos, temas e ensinos
do Antigo Testamento?”
. Se a
resposta for negativa, então, o que temos são diversas teologias do Antigo
Testamento e assim a “ideia de uma teologia do Antigo Testamento como tal
precisaria ser abandonada de modo permanente” (KAISER, 1984, p.23).
Ele
diz que o
Mitte deve ser
“textualmente demonstrado” tendo a abordagem canônica como canal de limitação
da Teologia Bíblica. Este tema era conhecido no “AT sob uma constelação de
termos. A mais antiga de tais expressões era ‘bênção’”
Mas
Kaiser segue a noção de que o verbo falar no hebraico “significava prometer”, e
assim, ele extrai das várias passagens que menciona a fala de Deus em termos de
promessa a sua Teologia Bíblica. E diz que a “estas promessas Deus acrescentou
Seu ‘compromisso’ ou ‘juramento’ assim tornando duplamente certas a palavra
imediata de bênção e a palavra futura da promessa”
. Assim,
ele oferece a chave que abre a porta para o tema unificador do Antigo
Testamento. Ele apela para as fórmulas da promessa, como ele mesmo chama, em
textos como Gênesis 15.7 “Eu sou o SENHOR que te tirei de Ur dos caldeus”
dizendo que esta expressão é a que domina a promessa.
Qual é
a vantagem deste método? Ele tende a enfatizar a unidade das Escrituras. No
entanto, corre-se o risco de tornar o resultado artificial e subjetivo, uma vez
que as diferentes categorias ou temas podem ser impostos pela teologia ao texto
em lugar de naturalmente serem percebidos nele. Alguém já disse que:
Até mesmo temas considerados universais como o pacto
podem acabar sendo usados de forma indiscriminada, torcendo os dados bíblicos,
ou mesmo ignorando-os, para que o resultado se encaixe em um determinado
padrão. Ainda que não incorra em todos esses perigos. (SOUZA, Teologia Bíblica: Um Esboço, aulas
ministradas no segundo semestre do SPN no ano de 2007)
e) O Pacto.
A próxima
proposta a ser avaliada é o conceito de aliança. Esta proposta é apresentada
por Eichrot. Pois, “apartir deste conceito explicamos a unidade estrutural e a
tendência básica permanente da mensagem do Antigo Testamento.”
Ele
sugere que o conceito não deve ser limitado a noções doutrinárias
, mas
como sendo uma descrição viva do progresso revelacional.
Isto
implica dizer que a “teologia de Eichrodt consiste numa das mais
impressionantes tentativas de se compreender o Antigo Testamento como um todo,
partindo não apenas de um centro, mas também do conceito unificador de
‘aliança’”
.
A
postura que adotamos é a questão do pacto, todavia, temos algumas considerações
apresentadas por Eichrodt, pois, ele fala como se houvesse várias formulações
pactuais.
Um
problema na discussão da aliança é que ela não contempla de fato os livros
sapienciais; mas Van Groningen percebendo esta falha no sistema pactual nos
apresenta uma alternativa adjacente para o pacto, ele mesmo diz:
Tenho desenvolvido o conceito do "Cordão
Dourado". Os três fios desse cordão dourado são o reino, o pacto e o
mediador. O reino, estabelecido na criação, é o cenário; a aliança é o meio
administrativo; e o mediador é (são) o agente da aliança servindo aos
propósitos do reino. (GRONINGEN, 2008, p. 39)
Diante
destas informações o que o ministro da palavra deve fazer? Uma vez que o
pregador consegue captar o Telos geral
das Escrituras ele será capaz de trabalhar com os “sub-telos” (ADAMS, Jay. Conferência Fiel para Pasoteres e Líderes, 2000).
O
que são os sub-telos? “São os temas menores que se manifestam nos livros da
Bíblia e que estão intimamente ligados com o telos maior das Escrituras”. (ADAMS, Jay. Conferência Fiel para Pasoteres e Líderes, 2000).
Jay
Adams nos mostra porque muitos sermões no Antigo Testamento parecem não possuir
unidade:
Há poucas deficiências na pregação, tão completamente
desastrosas em seus efeitos, quando a falha que ocorre, muito frequêntemente,
em se determinar o telos (ou
propósito) de uma porção que pode ser pregada. A passagem e, portanto, a
própria Palavra de Deus, é deturpada, abusada e mal tratada quando seu propósito
não foi determinado, resultando diretamente na perda de seu poder e autoridade
Qual é o tema
unificador que o exegeta deve identifica no Antigo Testamento? Uma vez
respondida esta pergunta à sua Teologia Bíblica implicará em um trabalho
exegético derivado unicamente das Escrituras.